De repente, não mais que de repente

De repente, não mais que de repente, me senti a única pessoa perdida no mundo. Afinal, de repente todos a minha volta tornaram-se especialistas no assunto política. De repente todos colocaram-se no direito de julgar uns aos outros e definir quem é inteligente e quem não é.

Em menos de dois meses, todos pregaremos sobre paz, amor e união, visto que estaremos em época de festas e esse período deve ser harmonioso. Seremos pessoas adoráveis, falaremos sobre fazer caridades, presentearemos conhecidos e desconhecidos, escreveremos clichês nas redes sociais.

Como é amável o ser humano! Tão vulnerável, tão influenciável, tão cheio de opinião própria (opinião esta que tem alterações de um dia para o outro, afinal, nem todos os dias amanhecem ensolarados não é mesmo?). E é claro que devemos prezar por essa mudança de princípios, seria muito hipócrita de nossa parte definir que nossos problemas políticos são culpa total do nordeste, e depois pagarmos 12x sem juros por um pacote que nos permita passar as férias ou o carnaval por lá.

É impressionante a capacidade que possuímos de nos ausentar da culpa. Chegamos a misturar as coisas, a mencionar números falsos de pesquisas, ou a xingar aqueles que foram protestar em 2013 contra a presidente Dilma (vale ressaltar que a maior parte das manifestações aconteceram em São Paulo, local que NÃO a reelegeu).

Outra curiosidade do ser humano é a sede pelos direitos. Basta alguém discursar que precisamos lutar pelos nossos direitos, e automaticamente acende em nós a chama da busca pela conquista. Olhem só, estamos cogitando sobre um possível impeachment, visto que o resultado das eleições não agradou a todo mundo. Ou melhor, não agradou a nossa atual classe média, classe média esta que colocou em vossas cabeças que são pessoas superiores da sociedade, transbordando direitos e em falta de deveres. Classe médias essa que mora de aluguel, mas esnoba aquele que não possui um celular de última geração como o seu. Pois bem, essa mesma classe média exige um impeachment, exige o direito de ter como representante quem bem lhe agradar. Claro, vamos organizar um impeachment, e logo por favor. Afinal foi uma eleição burlada, não foi? Foi uma eleição comprada, não foi? Foi uma eleição injusta, não foi? Não foi democrática, as pessoas não saíram de suas próprias casas para votar. É, temos mesmo de fazer um impeachment..

Incrível, encantador, inacreditável é o ser humano. Homens precisos, senhores de seus próprios egos, donos de sua razão, certos de sua qualidade de vida. Pode ser que ainda não demos conta disso, mas somos tão maravilhosos que nem mesmo precisamos de um representante.

Mas então nos lembramos de que nem tudo é tão simples, de que vivemos em sociedade, de que precisamos daqueles amigos que, sem querer, atacamos nas redes sociais. Então, de repente, deixamos de lado nossa revolta, nosso orgulho e nossa sede em satisfazer o nosso ego. Viramos novamente pacificadores do planeta, voltamos a fazer belas citações no Facebook, e tudo volta ao normal. À nossa bipolaridade e/ou hipocrisia normal.

De repente, não mais que de repente.

— Jayane Condulo.

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