“Quando falo sobre minha profissão, sempre digo que sou fotógrafo” diz diretor do Datafolha.

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Aos 53 anos de idade, Mauro Paulino é sociólogo pela USP e diretor do Instituto de Pesquisa Datafolha. Nascido em família humilde, ele nos conta sobre como tomou a decisão de entrar para a área de pesquisas de opinião, fala sobre os problemas sociais, quais os episódios mais marcantes de sua carreira, além de esclarecer todas as dúvidas sobre as eleições. Confira a entrevista a seguir.


Por que você decidiu trabalhar com pesquisas de opinião?

Desde criança eu tinha o interesse de saber o que os outros pensam. Eu senti na pele a diferença e o contraste social. Meu pai era zelador de edifício, e a família de um zelador mora no prédio com ele. Então, eu passei minha infância e adolescência convivendo com amigos do prédio, e sentindo eles literalmente acima de mim, pois a casa do zelador fica em baixo das outras no prédio. Eu sempre fazia a comparação “eles têm bicicleta, eu não tenho. Eles viajam, eu não” etc. E tudo isso me encaminhou para a sociologia, para entender as diferenças sociais. Outro motivo foi porque vivi na época da ditadura, mesmo que de uma forma inconsciente. Meu pai foi chamado várias vezes ao DOPS (Departamento de Ordem Política e Social) para responder perguntas sobre os moradores do prédio, e voltava pra casa revoltado, por ser maltratado. Nunca chegou a sofrer torturas físicas, pois o DOPS estava interessado em algum morador do prédio, não no meu pai, mas ele era brutalmente interrogado. Porém, sempre foi muito ético e resistia à passar qualquer informação sobre os moradores, afinal isso não cabia ao zelador. O que cabia ao zelador era preservar a vida íntima dos moradores, e era isso o que ele fazia. Observando tudo isso, fui me interessando em entender o porquê de tudo isso, fui me envolvendo com jornal, e acabei desaguando na sociologia da USP.

É verdade que você já foi pesquisador?

Sim. Para bancar os estudos e conseguir comprar todos os livros que eu precisava ler na USP, eu comecei a fazer bicos. O primeiro bico que encontrei foi justamente para ser pesquisador e peguei gosto de cara! Em 1982 teve a primeira eleição direta no Brasil, que foi a eleição pra governadores. Então pela primeira vez fui fazer pesquisa política, viajei muito pelo IPPM (Instituto Paulista de Mercado), e adorei. Depois que passou a eleição, continuei com pesquisa de mercado, trabalhando em outros institutos. Até que em uma dessas pesquisas, eu tinha que verificar quais produtos as pessoas tinham em suas residências. Eu tinha que entrar nas casas e abrir a geladeira das pessoas para anotar tudo. Ali eu disse “não gostei, não achei isso aqui legal” e quis voltar a fazer pesquisa política. Como eu já era assinante da Folha, e foi a época em que o Datafolha foi criado, fiz a ficha e voltei a trabalhar com pesquisas interessantes.

O que uma pessoa precisa saber ou quais habilidades precisa ter caso queira trabalhar nessa área?

A pessoa tem que gostar dessa área. Esse é o segredo pra qualquer coisa na vida: faça o que você gosta. Você não vai namorar alguém que você não gosta, por exemplo (risos). Então você tem que escolher uma profissão que você goste. Eu adoro fazer perguntas, adoro entender os movimentos da sociedade. Apesar de que até agora ainda não consegui responder o porque das diferenças sociais entre o filho do zelador e os moradores do prédio!

Você trabalha nesse ramo há muito tempo. Qual foi o episódio mais marcante de sua carreira?

Os mais marcantes são sempre nas épocas eleitorais. A eleição desse ano, por exemplo, foi com certeza a mais emocionante que eu cobri, não só pela eleição em si, mas também pelo desempenho do Datafolha. A visibilidade que adquirimos nessa eleição foi resultado de muitos anos de dedicação de todos que já passaram por aqui, e acabou sendo contemplada nessa eleição. A repercussão e a credibilidade, é fruto de um trabalho de 30 anos, então foi muito marcante pra mim. Além disso, foi uma eleição que teve de tudo; a morte de um candidato, a ascensão de Marina Silva, a aproximação inédita da oposição contra o PT, que foi algo muito acirrado principalmente no segundo turno, a discussão sobre os erros e acertos dos institutos, o desempenho incrível do Datafolha e do Ibope, enfim, tudo isso fez com que essa eleição fosse muito marcante. Pesquisa eleitoral é nossa realização aqui no Datafolha!

Os Institutos de Pesquisa são alvos de grandes discussões. Um dos casos mais polêmicos foi no início desse ano, quando o Instituto IPEA afirmava que 65% dos homens acreditavam que as mulheres que usam roupas curtas mereciam ser estupradas e depois admitiu erro, com o número correto de 26%. Como foi pra você, também representante de um Instituto de Pesquisa, encarar essa situação?

É sempre muito difícil. O IPEA reconheceu o erro e o corrigiu, isso foi algo positivo do Instituto. Por outro lado, mostrou que por algum motivo, todos os procedimentos de segurança não foram seguidos. São erros que todos os institutos estão sujeitos à cometer, porém alguns mais e outros menos, o Datafolha por exemplo, não teria cometido. Essa é a primeira regra que sempre passo aqui: desconfie do número antes de enviar para o cliente ou para qualquer outro lugar, desconfie. Isso eu aprendi com um erro clássico do Datafolha em 1993, quando houve o plebiscito sobre  presidencialismo ou parlamentarismo e mostramos num dado momento que havíamos invertido o número. A pesquisa havia sido manchete, e foi o maior erramos que a Folha já publicou em primeira página. Depois disso, nunca mais cometemos esse tipo de erro, aprendemos mais uma lição.

Em contrapartida, na maioria dos casos, como nas eleições desse ano, os Institutos de Pesquisa acertam em cheio os resultados finais dos pleitos. Como é possível chegar a estes resultados?

Isso é uma controvérsia. Eu, particularmente, tento sempre melhorar essa compreensão das pessoas: não existe erro ou acerto dos institutos. É considerado acerto quando o instituto dá um número na véspera, e esse número coincide com o das urnas, mas isso só ocorre porque do último momento da pesquisa até o momento do voto, nada aconteceu que pudesse mudar a opinião dos eleitores. No primeiro turno, é mais comum que aconteçam mudanças. Existe uma parcela considerável de eleitores que decidem seus votos no último momento, e também aqueles eleitores que se confundem mediante à tantos números e opções. São coisas que não acontecem no segundo turno, por exemplo, onde a decisão é muito mais fácil. Portanto o que os institutos mostram é sempre o passado, informações a partir do que já aconteceu. O que acontece depois daquele momento, não podemos saber. A gente não faz previsão, o que a gente faz é a fotografia daquele momento. Por isso, sempre que me hospedo em algum hotel e vou preencher minha profissão, coloco “fotógrafo” (risos).

Também nessas eleições, os Institutos de Pesquisa foram alvos de muitas críticas, principalmente através das redes sociais. Você ignora tais comentários ou os utiliza para aperfeiçoar os métodos?

As redes sociais são o território livre da sacanagem, então não dá pra ignorar. Uma das informações falsas que saíram foi a de que eu havia me reunido com a cúpula do PSDB para o planejamento da campanha do candidato Aecio Neves. Outra informação que se espalhou na Internet foi que eu teria recebido R$ 83.000.000,00 da campanha do PT para beneficiar a Dilma Rousseff. Portanto, a rede social tem uma grande força, mas eu tenho por hábito procurar saber de tudo, ficar por dentro. Prefiro saber de todas as críticas, filtrar o que tem conteúdo que possa  me fazer refletir e aprender com os erros, não fecho os olhos pro lado negativo da coisa.

As redes sociais são em grande parte utilizadas por jovens. Você acredita que isso contribua para o aumento do número de eleitores indecisos?

Não. As redes sociais ajudam a propagar informação sem filtro e às vezes sem fundamento, isso prolifera na Internet e pode aumentar a desconfiança. Mas os indecisos, em geral, são mais frequentes entre mulheres mais velhas, não entre os jovens. Se antes formar a opinião política da casa era um atributo dos homens, hoje é mais das mulheres.

Os usuários das redes sociais chegaram a questionar a seriedade do trabalho dos Institutos de Pesquisa. Até mesmo o candidato Aecio Neves fez tal questionamento. Como foi encarar essa questão?

Isso é comum, as pesquisas sempre desagradam algum grupo. Os candidatos ainda não aprenderam a lidar com esse dissabor que as pesquisas trazem, e acabam tendo atitudes como essa onde passam a questionar as pesquisas ao invés de tentar responder à realidade. Mas isso não abala de forma alguma o Datafolha. A diferença é que agora com a propagação dessas críticas pelas redes sociais, muitas vezes são criados alguns factoides aparentemente científicos, como aquela corrente que se espalhou dizendo que se recalculasse a pesquisa a partir dos resultados por região, o número do Datafolha daria Aecio na frente e não a Dilma. Porém estavam recalculando a partir da pesquisa anterior, mas muita gente acreditou que o Datafolha estava manipulando os números. Então de fato, a internet acaba potencializando esse tipo de crítica infundada.

Como você enxerga todo esse envolvimento das redes sociais nas eleições?

Acredito que esteja acontecendo uma revolução importantíssima em todos os aspectos da comunicação, no comportamento de obtenção e propagação da informação. Os consumidores de informação estão passando por um aprendizado de como separar o joio do trigo, o que é notícia de credibilidade e o que não é. Num primeiro momento, acho que há uma tendência a se acreditar apenas naquilo que confirma as suas próprias convicções. É um momento de amadurecimento tanto de quem produz, quanto de quem recebe informação.

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