Assédio

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Mais um dia cheio, saio do serviço e vou para a faculdade. Correr para pegar o ônibus já natural, ficar de pé já não incomoda mais. Um sujeito educado está sentado:
— Moça posso segurar sua bolsa?
— Claro, obrigada.
A viagem ficou mais leve, e assim continuo meu caminho. Um lugar vazio, sento no cantinho. Que lindo por do sol, os raios entram pela janela e iluminam o livro que está em minhas mãos.
Quase chegando no meu ponto, guardo o livro na bolsa e pego o celular, hora de conectar o fone de ouvido, o volume está ótimo e eu estou pronta para descer.
Ônibus cheio, é normal uma aproximação, relevo. As portas se abrem e eu desço, 500 metros até o metrô. Tudo estava normal, o dia estava até mais bonito. Sinto novamente a mesma aproximação do ônibus, mas dessa vez estava acompanhada.
Continuo andando pela passarela, e o que era só uma aproximação, agora são dois homens que chegam mais perto. Aperto o passo. Não adianta, piora. Os dois que antes apenas se aproximavam agora falam, e a fala não é boa. Não porque não são brasileiros, mas porque a fala é de baixo calão. No começo foi um “psiu”, depois virou “ei morena”, e se transformou em “gostosa, delicia”.
Ai que a ficha caiu, é um assédio!
Continuo andando rápido, aumento o volume do som, mas continuo escutando aquelas palavras. Não olho para os seus rostos, procuro os policiais, não vejo um. Ninguém para ajudar. Me vejo no meio de dois homens que têm o dobro do meu tamanho. As palavras continuam e agora eles estão encostando em mim. Então vem o sentimento de medo.
Finalmente a passarela acaba, descer a rampa é mais rápido. Eles ainda estão atrás, um de cada lado. A rampa acabou, vejo a entrada do metrô, quase corro, passo na catraca e subo as escadas tão rápido como nunca antes.
O metrô chega, entro e respiro fundo. Uma lagrima cai, e eu que sempre fui forte, hoje enfraqueci quando fui assediada.

— Rosângela Tomas.

Veja a cobertura completa feita pelo Rotineiras, do protesto contra abusos sexuais. CLIQUE AQUI.


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Rosângela Tomas de Carvalho tem 21 anos e é estudante de Jornalismo na FAPSP (Faculdade de Comunicação).

Dona de uma inteligência invejável e um sorriso completamente cativante, Rosângela sofreu assédio por duas vezes na última semana, o que a motivou para escrever a crônica. Apesar de sua personalidade forte e seus passos firmes, estremece só ao imaginar que poderia ter acontecido o pior. Passado o susto, ela encontrou nas palavras sua força de defesa e alerta de precaução.

Saiba mais sobre essa jovem jornalista, clicando aqui.

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