“Nossa sociedade acha que não precisa saber muito”, diz professora universitária de Língua Portuguesa

969812_103488349858332_1078051826_nCibélia Renata da Silva Pires, graduada em Letras pela Universidade de São Paulo (2005), com Mestrado em Filologia e Língua Portuguesa pela mesma instituição (2008). Tem experiência na área de Letras, com ênfase em Língua Portuguesa e Linguística, atuando principalmente nos seguintes temas: produção textual, gramática do Português Brasileiro, Filologia e edição de manuscritos do século XIX, Dialetologia e Linguística Histórica. A professora relatou nessa entrevista as mais diversas barreiras encontradas na profissão, além dos direitos e deveres não só do Governo em relação á Educação, mas da sociedade como um todo. Confira!


Como professora da matéria principal das escolas brasileiras, qual tem sido a maior dificuldade observada em aula?

Os alunos têm pouco conhecimento de mundo, e quando digo isso estou me referindo à política, economia, meio ambiente, direitos humanos, enfim. As pessoas estão cada vez mais limitadas. A gente tem que perder muito tempo trazendo algo novo para, a partir de então, poder trabalhar o básico do básico! Para trabalhar texto, por exemplo, é preciso trazer outros conhecimentos primeiro, e, quando você vê, já acabou o semestre. Essa é a maior dificuldade. Pior: os alunos chegam achando que sabem, por causa dos meios de comunicação, que na verdade funcionam como uma “escola emburrecedora”. E eu me refiro a universitário, que já tem toda aquela trajetória. Como você vai jogar aquela bagagem fora? As pessoas têm informações equivocadas o tempo todo pelos meios de comunicação, e há uma limitação tremenda nisso. Então, como explicar que não é bem assim? Já o aluno de escola fundamental, principalmente se for pública, é outro perfil, porque ele acha que não é importante, que provavelmente nem vai passar dali.  Aluno de escola particular também acha que não é importante, que vai suprir ao longo do tempo, então também não precisa. Estamos acostumados a uma sociedade em que as pessoas acreditam que não precisam saber muito. Elas precisam ter conhecimento técnico pra uma determinada profissão, e entram na faculdade assim. Infelizmente, é isso.

Sabemos que os alunos estão chegando nas faculdades despreparados intelectualmente, e viciados em erros banais de escrita. Quais técnicas você utiliza para contornar esse problema?

Bom, primeiro é preciso ganhar a confiança do aluno e fazer com que ele se interesse. Isso é muito difícil, pois aquele aluno olha para você e acha que tudo o que você vai falar, ele já sabe. Então, como ganhar a confiança e mostrar que uma outra coisa pode ser interessante? Aí é que se começa esse tipo de trabalho. Por exemplo, você não faz uma discussão mais profunda, tem que pegar algo mais voltado ao imediato, ao cotidiano, pra que o aluno veja que aquilo é importante pra vida dele naquele momento. Depois que ele é seduzido por aquilo, ai sim pode dar uns vôos mais altos. Depois! Isso leva quase um ano para começar a enxergar algum resultado. Um ano que poderia ser usado de outra maneira, mas de certa forma isso é bom. Tem professor que diz “ah, vou ensinar só o básico, as técnicas e pronto”, mas se eu ensinar técnica de redação, por exemplo, o aluno vai sair do mesmo jeito que entrou: sem saber nada, porque técnica não diz nada! Na verdade, eu quero plantar uma semente para que ele guarde aquilo para um futuro e possa andar sozinho. A ideia é que ele se torne independente.

O estado de São Paulo teve, em 2015, a maior greve de professores dos últimos tempos, com 92 dias de duração. Esse fato deixou claro o grande descontentamento dos profissionais. Na sua opinião, quais são os maiores pecados do Governo Estadual em relação à educação?

Nossa, é até difícil de falar, são tantos! Primeiro, que é uma coisa já planejada; ter um sucateamento do ensino público. Até porque, em todo o serviço público que você começa a promover um sucateamento, é um passo para privatizar, isso não só aqui no Brasil. Então, é importante deixar claro que determinados governos seguem um padrão neoliberal, que diz o seguinte: é preciso tirar o poder do Estado e deixar uma maior abertura para as empresas. Então, o que acontece: o Governo do Estado não gosta de pagar os direitos dos professores, não dá condições mínimas em sala de aula, e o aluno já vem de uma situação difícil na casa dele, então já vem desmotivado. Quando um professor faz greve, a mídia se cala. O professor não pode chegar num meio de comunicação e falar que ganha mal e todas as outras coisas. Não pode, como funcionário público ele não pode fazer isso. A mídia por si também não fala. Eu acho que os pais dos alunos poderiam ter um engajamento maior, nós poderíamos ter um engajamento maior. Afinal nós não estamos falando de um professor de escola pública que “não tem nada a ver comigo”. No Japão, estão acabando com as faculdades da área de Humanas. O que esperar de um lugar que não vai mais ter faculdade de Humanas? O professor que dá aula em escola pública, está dando aula para o básico, aquele que amanhã vai atuar em alguma área. Aí depois  vem criticar quando o aluno vem pro nível superior sem saber absolutamente nada. É claro que ele não sabe nada! O Governo Estadual atual, tanto aqui em São Paulo quanto no Rio de Janeiro, está massacrando a Educação. Isso não é uma questão apenas do aluno de escola pública, isso diz respeito a mim, a você, a cada leitor do blog. Mas as pessoas veem como algo isolado. Entra numa escola pública pra você ver se tem vontade de voltar! E depois condena um aluno que não quer ficar na escola pública, quem é que gosta? Não dá, não tem estímulo. Eu dei aula em escola pública e posso garantir: é difícil para o professor, é difícil para o aluno, e o Governo do Estado está sempre piorando a situação. Agora, por exemplo, se o professor não é concursado, ele tem que pegar aula seja lá em qual parte de São Paulo for, esteja perto da sua casa ou não. Que professor vai gostar de uma situação dessas? Se as pessoas se conscientizassem em não culpar o professor ou o aluno (porque a nossa tendência é culpar a vítima do sistema), também ajudaria. Não é dizer “o professor escolheu isso por profissão, ele sabia que ia ganhar pouco, então tem que aguentar isso”; não é culpar o aluno porque “se o aluno tivesse educação em casa, iria chegar e se comportar”. Não existe isso. Se você ganha extremamente pouco, não é respeitado na sua profissão, e a sua profissão não tem suporte; é impossível conseguir ir pra frente. Ainda mais com o favor que fizeram com essa aprovação automática, isso dificulta muito. Esse também foi um dos maiores erros que o Governo cometeu; a progressão continuada. Na época da greve, eu estava no ônibus quando um senhor (provavelmente aposentado) levantou, abriu a janela e gritou “bando de vagabundos!” Aí eu fiquei pensando; o senhor que estava ali naquela tarde, provavelmente aposentado, numa situação até vulnerável no nosso país, porque ganha pouco, e gritando que quem está fazendo reivindicação é vagabundo. Então, o que você vai esperar?

Fatos como a greve dos professores no Paraná [também em 2015, onde PMS e manifestantes se confrontaram], mostram o quanto a profissão vem sendo desrespeitada. Você considera que a culpa dessa desvalorização seja apenas do Governo?

Olha, deixa eu te contar uma história: eu estava também num ônibus e a campainha não funcionava, e eu perguntei para o cobrador se estava quebrada. Ele respondeu “sim, você tem que ligar em tal telefone reclamando. Mas também, o povo elege a Dilma, olha ai!”. E eu fiquei tentando fazer a ligação [risos]. Uma outra mulher entrou na conversa e falou que se encontrasse a Dilma na rua, enchia ela de tapas! Então, as pessoas não têm educação política, porque acham que vivem numa monarquia. As pessoas acreditam que a presidente chega lá, manda e todos obedecem. E não estou falando só de pessoas despreparadas; eu mesma já tive discussões com pessoas de nível superior e uma formação muito boa, mas disseram que a escola estadual estava ruim por conta da Dilma. Ora, você tem um repasse de verbas para a Educação, a presidente não pode tomar conta de todos os hospitais, escolas, etc, para isso tem que haver um repasse de verbas. Para isso existe o governador, o prefeito, o vereador, o deputado, o senador. No entanto, tudo o que acontece é responsabilidade dela! Nós vamos ver, por exemplo, o desenrolar sobre financiamento privado pra campanha eleitoral, porque estamos lutando para o financiamento público. A presidente foi lá e vetou, agora foi para o congresso. Vamos ver se eles vão derrubar o veto dela. Se derrubarem, vão falar “tá vendo, tudo a mesma coisa por culpa da presidente”. Então, as pessoas não têm o conhecimento de como funcionam as instituições. Eu fico me perguntando por que a pessoa acha que vota pra um senador? Para ele fazer o quê, se tudo é atribuído à presidente? Deveriam pular essa etapa na hora de votar! É complicado. Quando a gente fala de corrupção, por exemplo, ninguém sabe que o Azeredo, em relação ao mensalão tucano, foi condenado a vinte e dois anos de prisão. Quem é que fala alguma coisa disso? Ninguém fala. Ninguém fala também que a Lava a Jato, perto da Operação Veloz e perto do HSBC, foi o menor, em casa de bilhões. Mas todo mundo fala da Lava a Jato. É complicado, falta educação política no nosso país.

O aumento das críticas contra a presidente Dilma, na sua opinião, se dá por sua má gestão ou pelo fato de ser uma figura feminina no poder?

Olha, vamos falar do governo da Dilma e não do partido em geral. Ela mudou bastante a agenda, segue uma política neoliberal e teve que fazer acordos com partidos que não eram da base ideológica dela, então digamos que teve que fazer muitas concessões. É só olhar para os ministérios dela: ministério da cidade, ministério da saúde (que ela praticamente cedeu a uma pressão), o ministério da agricultura, etc. Obviamente que os movimentos sociais que apoiavam o governo Lula ficaram um pouco desapontados. Porém, um Governo que não faz acordos, não consegue se eleger, a verdade é essa. Ela teve que fazer determinados acordos, cedeu até um pouco mais que o necessário, mas teve que fazer. Agora, o que é interessante nessas críticas, que eu percebo, é o seguinte: as pessoas acham que o Brasil é um planeta a parte. Isso está relacionado à educação política. As pessoas ignoram que outros países estão também em situação de crise, em situações até piores que a nossa, inclusive os Estados Unidos. Ninguém fala que o Bolsa Família tem sido colocado como modelo em países que eram considerados de primeiro mundo, como a Alemanha, a França e o Japão. As pessoas ignoram esse fato e ficam batendo na mesma tecla. Eu tenho uma infinita preguiça em discutir com alguém que não tenha o menor conhecimento sobre o assunto, eu não me dou esse trabalho! Quando falam de crise aqui no Brasil, eu digo para comparar os números. Falavam tanto em desemprego, entretanto a taxa de desemprego está menor aqui do que em outros países como Portugal, França, Estados Unidos, e eu não estou falando de países do continente africano, estou falando de países que sempre estiveram muito a frente do Brasil. Como você explica que em uma situação de crise mundial, o Brasil, pela primeira vez, saiu do mapa da fome? E isso pela ONU, não estou falando pelos dados do próprio Brasil. A prefeita de Paris, por exemplo, disse que votaria no Haddad, porque ele é um visionário urbano. Não é uma pessoa de qualquer lugar, é a prefeita de Paris! As pessoas falam de crise, crise, crise, mas a China está investindo no Brasil, numa transferrovia. Voltando a pergunta inicial, se é por má gestão ou porque a Dilma é mulher, eu digo: o fato de ela ser mulher pesa também. Afinal, nós vimos aquele adesivo imoral, que se fosse em outro país todos estariam presos. Mas foi vendido no Mercado Livre, que por acaso a filha do José Serra é uma das donas. Quer dizer, se fosse alguém ligado ao PT que fosse dono do Mercado Livre, e saísse uma foto de qualquer outro presidente ou qualquer outro político naquela situação, essa pessoa já teria sido indiciada. Mas nada aconteceu. Então, é porque a Dilma é mulher? Também, mas principalmente porque ela tem mexido, e muito, com questões dos direitos dos mais poderosos. Agora, por exemplo, estão falando da CPMF. Eu fico indignada, ora, pobre com medo da CPMF! Que por acaso, foi criada no governo do Fernando Henrique Cardoso, e ninguém falou nada. Quando ele criou a reeleição também ninguém falou nada, agora ele é contra. Só que a CPMF vai taxar quem tem dinheiro, e quem tem dinheiro não quer ser taxado. Por que quando nós falamos sobre taxar as grandes fortunas, as heranças, lucros e dividendos, o pessoal não quer? Se são tão a favor dos mais pobres, qual é o problema? Nós estamos vivendo uma situação de crise estrutural, não é só no Brasil.

No texto “Professores, Acordem” escrito pelo economista Gustavo Loschpe para a Revista Veja, ele afirma que “aumento de salários para professores não resolve o problema da educação no país”. Você concorda com essa afirmação?

Realmente, só salário não iria resolver, teria que mudar toda a estrutura das escolas, mudar uma base social. Mas isso não significa que não deva dar um aumento para os professores. Se eu falar, por exemplo, que uma maior participação da mulher no mercado de trabalho não vai acabar com o machismo, não significa que eu não deva inseri-la no mercado de trabalho. Então, ele utilizar esse tipo de argumento, chega ser rasteiro, para não dizer de má fé! Os professores devem ganhar bem sim, até porque eles têm família, estudaram a vida inteira, e realmente têm uma obrigação. É inadmissível que, por acaso, um político ganhe X, e um professor que é responsável por formar o país (porque a Educação é o pilar), ganhe um salário miserável. Não tem nem sentido um negócio desses! Provavelmente, onde esse economista estudou, os professores ganhavam bem.

No mesmo texto, o economista afirma que professores usam de vitimismo para comover a população sobre suas condições. Você acredita conter vitimismo ao dizer que a profissão está desvalorizada?

Interessante que só se fala em vitimismo quando é um trabalhador fazendo alguma reivindicação, ou quando é uma pessoa pobre em uma situação de desvantagem. Quando é o rico, ninguém chama de vitimismo, ele pode se queixar a vontade. Por exemplo, quando o Luciano Hulk teve seu rolex roubado e foi para a capa da Revista Veja, por que não disseram que ele estava com vitimismo? [o apresentador teve seu relógio rolex roubado em outubro de 2007, no Itaim Bibi, zona sul de São Paulo] Ele ganhou a capa de uma das revistas mais vendidas, e todos abraçaram seu discurso. Então, quando a reclamação vem de um rico, ninguém fala que é vitimismo. O que me causa indignação, não é um sujeito como ele falar isso, mas é quando um pobre começa a fazer esse discurso meritocrático, dizendo: “mas se fulano conseguiu, todos podem conseguir”. Esses dias, um aluno veio me falar que estava debatendo com um amigo, e esse amigo disse que não existe racismo no Brasil, porque se Joaquim Barbosa conseguiu ser ministro, qualquer um consegue. Aí eu fiquei me perguntando se essa pessoa não olha para os lados! Nesse ponto, eu me lembrei do Emicida falando, que é engraçado quando um negro tenta pegar um carro, é mais fácil parar a polícia do que parar um táxi. Então, quer dizer, a pessoa ignora tudo ao seu redor, fala que Bill Gates conseguiu, então qualquer um consegue, não importa se a realidade dela diz outra coisa! Não importa se toda a minha família sempre lutou e nunca conseguiu nada, nem se todos os meus amigos vivem nessa situação, o que importa é que um sujeito que eu não conheço (mas está na mídia) conseguiu. Então, eu ignoro tudo o que estou vivendo, e vou olhar para ele, que foi o único! As pessoas não enxergam aquele único como uma exceção, e sim como uma regra, e a partir daí, fazem o discurso do outro lado, que é bastante conveniente. Afinal, quem reclama é inoportuno. É muito difícil, porque quando acontece qualquer situação de manifestação, as pessoas não querem se identificar com os mais pobres. Pelo contrário, pode até estar numa situação igual àquele que está reivindicando, porém, não se vê como aquela pessoa, sempre quer se ver como a elite.

A aprovação da lei de cotas raciais nas universidades completou 3 anos em agosto de 2015 [Lei nº 12.711/2012], no entanto ainda não é bem aceita por parte da população brasileira, incluindo alguns docentes. O que você diz a respeito?

É engraçado, porque na verdade esse processo de cotas é uma tentativa de reparação. É um direito do cidadão. Mas aí vão me citar de novo Joaquim Barbosa, me dá um nervoso isso! As pessoas tentam inverter o discurso, dizendo que é justamente por achar que os negros são capazes, que eles podem concorrer de igual para igual. E são mesmo capazes, mas não têm as mesmas condições. Colocar o benefício de cotas não significa que os negros não vão concorrer, pelo contrário, vão continuar concorrendo, mas com condições minimamente iguais. Afinal, caro leitor, não há condições iguais, você quer que tenha, mas não tem! Quando houver condições iguais, aí então poderemos repensar o sistema de cotas. Nem na TV há representação de negros! Bonecas, por exemplo, quais bonecas negras que nós temos? Assim como a representação de negros em novelas é mínima! O Brasil não é um país racista? Então por que no lugar do William Bonner, não colocam um negro? Num país onde a maioria é mestiço ou negro, por que não inverter? Coloca um ou dois brancos, e a maioria negro! Aposto que essas mesmas pessoas contra cotas não vão se quer ligar a televisão, ou vão dizer que não é confiável. Então, sou a favor das cotas sim, pois elas são urgentes!

Para você, qual medida deveria ser tomada no presente, para melhoria da educação no futuro?

É preciso que as pessoas se questionem mais, façam mais reflexões em cima das teorias. E é preciso também que os meios de comunicação deem mais abertura para a Educação!

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