Carta aos professores

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São Paulo, 14 de outubro de 2016.

Destino esse texto àqueles que me ensinaram que não há outro jeito de se começar uma carta, senão pela data.

Caro professor (a),

Sinto muito pelo o que lhe fizeram. Ver o quanto a sociedade te despreza — nos princípios e no salário — me entristece e me dói como se fosse comigo. E, de certa forma, é.

Tive minha primeira professora em casa, a que me ensinou a falar “mamãe”, pois era ela mesma. Me ensinou o significado de “não” e quais eram as vogais. Quando entrei na primeira série do Fundamental, dona Maria das Dores foi a extensão de mamãe. Esta, com todo carinho e amor, me ensinou a escrever. Com 7 anos fiz minha primeira poesia, porque a professora mandou e incentivou. Saber que a maioria dos que eram meus colegas na época hoje já nem lembram mais de sua existência, me mostra o quanto seu nome n]ão era em vão.

Já não bastasse o esquecimento dos alunos, vocês têm de enfrentar o descaso do Governo. Recordo-me de meus professores de Educação Artística e Educação Física, alguns que até vi chorar, que eram deixados de lado na grade curricular das escolas. E se já era assim há alguns anos, coloco-me em suas peles hoje, com a não-obrigatoriedade de tais disciplinas no Ensino Médio. Não, não foram extintas (como o próprio Governo diz), só não são tão importantes assim.

Enquanto os professores do primário não têm nenhum valor, os que dão aulas em universidades roubam-lhes toda a importância. Parei de contar quantas vezes ouvi que não podia ficar dando ouvidos aos meus professoras da faculdade, pois são manipuladores demais. Quem dera o mundo inteiro reconhecesse que tais profissionais podem nos abrir portas, janelas, até o universo!

Mas a verdade é que todos vocês foram e sempre serão os meus óculos, me fazendo enxergar com mais clareza a realidade que antes era vista com miopia. Não fosse vocês, eu jamais estaria onde estou. Nem eu e nem mais ninguém dessa sociedade tão mal agradecida. Não sou mais cega das letras, muito menos cega do mundo.

Escrevo para manter-lhes viva a certeza de que ainda vale a pena. De que as inúmeras vezes em que abraçaram seus alunos (até literalmente) não foram esquecidas. De que as lições, dentro e fora da escola, não foram apagadas. De que sois importantes. Sempre serão!

Jayane Condulo.

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