Eu não quero morar na periferia

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Minha mãe começava a guardar nossas coisas em caixas, fazia três meses que meu pai havia morrido. Ele era policial militar e, ao contrário do que muitos pensam, morreu de infarto e não em serviço. Agora que não temos mais ele, minha mãe disse que precisamos nos mudar, pois morar onde moramos ficou caro.

— Mãe, eu não quero morar na periferia.

— Por que não meu filho?

— Por que a polícia da periferia mata.

— Não diga bobagens menino, a mesma polícia de lá é a polícia daqui.

Minha mãe, que há 40 anos morava no Ipiranga, bairro nobre na zona sul de São Paulo, nunca parou pra pensar no que eu estava dizendo.

— Não mãe, a polícia daqui não é a mesma de lá. Aqui eles nos dão bom dia, sorriem pra todos e, quando algo acontece, eles averiguam com toda a educação.

— Igual à polícia de lá.

— Claro que não, mãe. Lá polícia não entra no bairro, ela invade como se estivesse entrando em uma zona de guerra. Como se todo mundo lá dentro fosse criminoso!

— De onde foi que você tirou isso? — minha mãe que antes arrumava as coisas agora me olhava atenta.

— De todo o lugar mãe! O papai sempre dizia isso, que quando era mandado pra fazer ronda no Morumbi, seus chefes diziam que ele deveria agir de um jeito totalmente diferente do jeito que agia quando estava na Cidade Tiradentes.

Como todo filho, eu sentia falta do meu pai. Ele era um bom homem, pelo menos eu acho que era. Nem todo policial é mau. Eu nunca vi meu pai em ação, mas acho que ele era diferente, não por ser meu pai, mas por tudo que ele me ensinou sobre moralidade e respeito.

— O Jardim Pantanal é um bairro bom — minha mãe voltou a prestar a atenção nas coisas que estava arrumando, não parecia estar muito interessada naquele assunto.

— Todo bairro é bom mãe, o problema é como o bairro é visto.

— E como ele é visto?

— Como a grande imprensa mostra mãe, que nas periferias só mora bandido, que são bairros perigosos, e nós acreditamos nisso, mas não é verdade. Eu conheço pessoas da periferia, são gente como a gente.

— Eu sei que são boas pessoas, por isso nós vamos nos mudar pra lá.

— A pessoas são, mas a policia não! — Eu já começava a me irritar, mas minha mãe parecia não entender meu ponto de vista — Se nos mudarmos pra lá, eu vou ser enquadrado.

— Não diga bobagens, você só tem 13 anos.

— Pois eu conheço meninos com 10 anos que já até apanharam da polícia.

— Por que alguma coisa fizeram. Se você não fizer nada, não tem porque se preocupar.

— Está vendo? É isso que eu quero dizer, olha o seu preconceito ai. Nem todo mundo que a polícia enquadra é culpado. Eu vou ser enquadrado de qualquer jeito.

– Por quê?

— PORQUE EU SOU NEGRO MÃE — agora não dava mais pra segurar, eu gritava e as lágrimas escorriam — Porque eu gosto de andar de chinelo e regata, de ficar até tarde na rua jogando bola, de ficar sentado na calçada jogando conversa fora e porque nós vamos morar na periferia e é assim que a polícia trata quem mora lá. Ela enquadra, ela bate, ela xinga e depois diz que nós que começamos.

— Aqui a polícia nunca te bateu.

— Porque eles me vêem na rua com você que é branca. Porque eles me vêem com os filhos dos vizinhos que só andam bem vestidos. Por que eles sabem que eu moro aqui e que meu pai era policial.

Agora, a ficha da minha mãe parecia cair. Durante um tempo ela ficou estática e não disse mais nada. Parou de arrumar as coisas e foi embora para o seu quarto fechando a porta.

Naquele dia ninguém tocou mais no assunto, nem no dia seguinte e nem na semana seguinte. Minha mãe fez o que muitas pessoas fazem, fechou os olhos para uma realidade pouco mostrada e se calou por não saber como agir ou por ter medo de agir.

— Rosângela Tomás.

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