​ Quantas “São Paulo” existem?

reg. 044 Centro de São Paulo multidão. 23/02/2016 Foto: Marcos

Era quase nove da noite e ela estava em Pinheiros, zona oeste da capital. Ao seu lado, a colega perguntava sobre o caminho que faria de volta pra casa.

— Preciso chegar até a Barra Funda de algum jeito, pegar o metrô até Itaquera e depois um ônibus que me deixa perto de casa.

Ela resumiu, sabendo que a outra não entenderia os detalhes, tal como ninguém entende. Os detalhes, no caso, é que onde estavam naquele momento era bastante contramão, e para chegar até a Barra Funda primeiro precisaria parar na Lapa pra pegar um outro ônibus. Além disso, depois de atravessar de ponta a ponta a linha vermelha do metrô, teria que ficar mais ou menos meia hora no terminal, esperando por outro ônibus em que pudesse ir sentada, já que desenvolveu síndrome do pânico e passa mal toda vez que vai os mais de quarenta minutos de viagem em pé.

Mesmo sem os detalhes, a colega comentou, quase sem acreditar que aquele caminho todo fosse possível:

— E lá por acaso passa bilhete único normal? Precisa do intermunicipal né?

Não, não precisa. Ainda é São Paulo, apesar de ser extremo do extremo leste. E caso precisasse, qual seria o problema nisso? O importante é chegar.

Quem mora nas pontas da cidade, às margens, conhece praticamente São Paulo inteiro, porque é obrigado a se locomover. Quase não há emprego nas zonas extremas e, apesar de ter diversas possibilidades de transporte, é preciso fazer muitas baldeações e geralmente utilizar dois ou três tipos de modais (ônibus, trens, metrôs). Mas chega.

Já quem mora um pouco mais próximo ao centro, geralmente conhece apenas uma São Paulo: aquela em que vive. Tem emprego, estudo e lazer sempre muito próximo, o mais longe dura meia hora de distância. Alguns acabam nem conhecendo todas as opções de transporte que a metrópole oferece, pois não têm necessidade. Outros, conhecem muito mais: já visitaram os principais pontos turísticos da cidade, pois como não perde tanto tempo de locomoção, têm disponibilidade de desfrutar de outras coisas.

Ela não. Com menos de um metro e meio de altura, gasta aproximadamente duas horas para ir e mais duas para voltar do trabalho. Isso sem contar a faculdade, que a faz chegar por volta de meia noite e meia em casa. Atravessa a cidade, literalmente, todos os dias. Nunca se perdeu; São Paulo lhe ensinou os “macetes”. E, apesar de ninguém acreditar que existe São Paulo após a linha vermelha, ela está lá. Como a maioria das pessoas da cidade.

— Jayane Condulo

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