Caminho de pobre

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Caminho de pobre é algo engraçado. Geralmente, ele mora no extremo da cidade (extremo mesmo, beirando a divisa com o interior), e todo mundo sabe que nos extremos não tem emprego. Emprego de bairros extremos só se for cabeleireiro ou dono de bar. Mas emprego mesmo, no geral, não tem.

Como não tem emprego no extremo, o pobre vai trabalhar em outro lugar. Ele atravessa a cidade e, por causa disso, às vezes passa mais tempo no trajeto do que na empresa. Afinal, quem mora no extremo nunca usa um transporte só. Tem que pegar ônibus, trem, outro ônibus e às vezes ainda anda um pedacinho a pé.

Nesse percurso todo, o caminho torna-se engraçado. Porque o pobre sai la do seu extremo, com calçadas tortas e asfalto emburacado, e se transporta entre as várias classes da cidade. Ele conhece desde a van sem lugares suficientes quanto o ônibus com ar condicionado e tomada pra carregar celular. Sai das ruas cinzas, com residências mal acabadas no reboco, e passeia pelas vias lindamente arborizadas. Enxerga desde uniformes sujos do trabalho do dia anterior até empresários engravatados, com camisas impecavelmente passadas. E faz baldeações que transitam entre estações cuidadosamente privatizadas e estações descuidadosamente públicas.

Caminho de pobre é engraçado, pois pode brincar de ser gente grande no meio dos ricos (para quem ele trabalha) e depois, no fim do dia, volta para seu extremo inacabado.

— Jayane Condulo

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