Autor: Jayane Condulo

Jayane Condulo, 21 anos, paulistana, cristã e estudante de Jornalismo. Poetisa desde os 7 anos de idade, sempre foi amante das palavras e inimiga das rotinas. Afinal, como qualquer outro poeta, sempre apreciou a liberdade e vive em busca da mesma, ao passo que rotinas nos aprisionam. Apaixonada pela Lua, atraída pelo som de qualquer violão e inconformada com a despoesia da vida, a jovem escritora expõe aqui suas revoltas, crises e amores de uma maneira peculiar.

Caminho de pobre

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Caminho de pobre é algo engraçado. Geralmente, ele mora no extremo da cidade (extremo mesmo, beirando a divisa com o interior), e todo mundo sabe que nos extremos não tem emprego. Emprego de bairros extremos só se for cabeleireiro ou dono de bar. Mas emprego mesmo, no geral, não tem.

Como não tem emprego no extremo, o pobre vai trabalhar em outro lugar. Ele atravessa a cidade e, por causa disso, às vezes passa mais tempo no trajeto do que na empresa. Afinal, quem mora no extremo nunca usa um transporte só. Tem que pegar ônibus, trem, outro ônibus e às vezes ainda anda um pedacinho a pé.

Nesse percurso todo, o caminho torna-se engraçado. Porque o pobre sai la do seu extremo, com calçadas tortas e asfalto emburacado, e se transporta entre as várias classes da cidade. Ele conhece desde a van sem lugares suficientes quanto o ônibus com ar condicionado e tomada pra carregar celular. Sai das ruas cinzas, com residências mal acabadas no reboco, e passeia pelas vias lindamente arborizadas. Enxerga desde uniformes sujos do trabalho do dia anterior até empresários engravatados, com camisas impecavelmente passadas. E faz baldeações que transitam entre estações cuidadosamente privatizadas e estações descuidadosamente públicas.

Caminho de pobre é engraçado, pois pode brincar de ser gente grande no meio dos ricos (para quem ele trabalha) e depois, no fim do dia, volta para seu extremo inacabado.

— Jayane Condulo

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Os gordos, os magros, e os limites da piada com o alheio

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Nós temos um problema: somos engraçados demais. “Demais” mesmo, no sentido literal da palavra, que significa de ‘modo excessivo ou em exagero’. Vou além do dicionário e afirmo que “demais”, nesse caso, poderia ter “desnecessário” como sinônimo.

De onde foi que tiramos que é liberado fazer piada com tudo e, pior, com todos? Com loira, nordestino, português, negro. Mas com esses todo mundo sabe que é preconceito. Com gordos também, aliás. Mas, e quando a piada é com gente magra?

A humanidade caiu na ilustre besteira de padronizar um “corpo ideal”. O cara da barriga sarada e abdômen definido e a mulher magra, porém bunduda e peituda, são nossos exemplos e meta de vida. Que absurdo! E se eu tiver problemas de saúde, como a obesidade ou anorexia, que nem sempre são por descuido da pessoa? E se eu não tiver tempo pra fazer academia pra deixar meu corpo todo durinho? E se eu não tiver dinheiro pra fazer uma plástica, reduzir o estômago ou encher mais o bumbum?

Não interessa. Se a gente não se adequar ao padrão perfeito, seremos motivo de piada.

Outro dia vi alguém ‘zoando’ outra pessoa por ser magra demais, a ponto de não poder doar sangue pela falta de peso. Porém, o que o piadista não imaginava é que o motivo da graça para ele era sinônimo de desgosto e tristeza para o personagem ofendido.

A gente nunca sabe o que machuca uma pessoa, mas faz piada mesmo assim. Mais uma vez: que absurdo!

Acredito, sim, num padrão de corpo ideal: aquele em que a pessoa se sinta bem. Não interessa se é magra demais, gorda demais, com estrias demais ou sem curva nenhuma. O padrão de corpo ideal é a aceitação, consigo mesmo e com o alheio. E não há graça nenhuma nisso. A piada da vez é ser feliz como está.

— Jayane Condulo

​ Quantas “São Paulo” existem?

reg. 044 Centro de São Paulo multidão. 23/02/2016 Foto: Marcos

Era quase nove da noite e ela estava em Pinheiros, zona oeste da capital. Ao seu lado, a colega perguntava sobre o caminho que faria de volta pra casa.

— Preciso chegar até a Barra Funda de algum jeito, pegar o metrô até Itaquera e depois um ônibus que me deixa perto de casa.

Ela resumiu, sabendo que a outra não entenderia os detalhes, tal como ninguém entende. Os detalhes, no caso, é que onde estavam naquele momento era bastante contramão, e para chegar até a Barra Funda primeiro precisaria parar na Lapa pra pegar um outro ônibus. Além disso, depois de atravessar de ponta a ponta a linha vermelha do metrô, teria que ficar mais ou menos meia hora no terminal, esperando por outro ônibus em que pudesse ir sentada, já que desenvolveu síndrome do pânico e passa mal toda vez que vai os mais de quarenta minutos de viagem em pé.

Mesmo sem os detalhes, a colega comentou, quase sem acreditar que aquele caminho todo fosse possível:

— E lá por acaso passa bilhete único normal? Precisa do intermunicipal né?

Não, não precisa. Ainda é São Paulo, apesar de ser extremo do extremo leste. E caso precisasse, qual seria o problema nisso? O importante é chegar.

Quem mora nas pontas da cidade, às margens, conhece praticamente São Paulo inteiro, porque é obrigado a se locomover. Quase não há emprego nas zonas extremas e, apesar de ter diversas possibilidades de transporte, é preciso fazer muitas baldeações e geralmente utilizar dois ou três tipos de modais (ônibus, trens, metrôs). Mas chega.

Já quem mora um pouco mais próximo ao centro, geralmente conhece apenas uma São Paulo: aquela em que vive. Tem emprego, estudo e lazer sempre muito próximo, o mais longe dura meia hora de distância. Alguns acabam nem conhecendo todas as opções de transporte que a metrópole oferece, pois não têm necessidade. Outros, conhecem muito mais: já visitaram os principais pontos turísticos da cidade, pois como não perde tanto tempo de locomoção, têm disponibilidade de desfrutar de outras coisas.

Ela não. Com menos de um metro e meio de altura, gasta aproximadamente duas horas para ir e mais duas para voltar do trabalho. Isso sem contar a faculdade, que a faz chegar por volta de meia noite e meia em casa. Atravessa a cidade, literalmente, todos os dias. Nunca se perdeu; São Paulo lhe ensinou os “macetes”. E, apesar de ninguém acreditar que existe São Paulo após a linha vermelha, ela está lá. Como a maioria das pessoas da cidade.

— Jayane Condulo

Os pecados em minha testa

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Ontem eu pequei.
Dormi com um homem que não era meu.

Ontem eu tinha um nome.
Até descobrirem quem sou.

Já não sou quem antes era,
Sou o que eu fiz.

Antes Maria,
Hoje prostituta.

Disseram-me que meu pecado ficaria estampado em meu rosto pra sempre.
Um fardo a ser carregado, uma mácula marcada de sangue.
Meu pecado é minha identidade de hoje em diante.

Do meu rosto escorriam gotas dos riscos que formavam uma palavra em minha testa.
Do coração escorria a dor. Dos olhos, a tristeza da humilhação.

Corri, fugi, me entreguei.

Encontrei uma luz, era como um espelho refletindo o sol.
Cheguei perto e olhei pra mim, tentando ver as marcas deixadas pelas minhas escolhas.
Expostas, nuas, cruas, minhas.

Olhei e vi.
Um espelho, meu rosto, eu.
Não havia sangue, não havia nome, não havia pecado.

Quando a luz apagou eu percebi.
O espelho era um homem, era ele.
Marcado, sofrido, espancado.
Em sua pele escorria o sangue de palavras escritas por pontas afiadas, marcadas durante séculos.
Suas mãos furadas, assim como seus pés.

Sobre sua cabeça, uma placa.
Não seu nome, mas o que diziam sobre ele.
“Rei dos Judeus”

Em suas feridas, marcadas por homens cruéis, uma profecia:
“O castigo que nos trouxe paz estava sobre ele, e pelas suas feridas fomos curados”.

Então Ele me disse:
– Maria, deixei que escrevessem em mim a verdade sobre vocês. Cada corte, cada ferida. Eu me tornei como vocês, para que vocês pudessem se tornar como Eu. Pra que nunca mais fizessem com vocês, o que fizeram comigo. Decidi trazer no meu corpo as marcas das ações de vocês, pra que vocês sempre pudessem ter a chance de recomeçar sem elas.

Vem ver, não há marcas em você! Elas foram escritas em mim. Vai, pode recomeçar!

— Sarah Furtado

Cristãos x Cracolândia: onde a Igreja estava enquanto Dória atuava?

Por Jayane Condulo

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Era uma manhã de domingo quando o burburinho começou.  Antes mesmo do relógio pontuar 7h, o barulho de bombas acordava os moradores da região e surpreendia os desavisados no local.

Há quase três semanas, quase não se fala em outra coisa que não seja a ação policial  curta e grossa  na Cracolândia de São Paulo, sob o comando do atual prefeito João Dória. Desde então, as redes sociais dos brasileiros, como um todo, foram tomadas por postagens sobre o assunto, exibindo críticas das mais variadas e até mesmo contestáveis. Inclusive em perfis cristãos.

Enquanto vários religiosos alimentavam suas páginas no Facebook com opiniões aparentemente formadas e concretas, um grupo muito peculiar trabalhava arduamente para tentar sanar o problema da Cracolândia.

A Missão Batista Cristolândia atua há 8 anos na região resgatando pessoas em situação de rua e dependência química. Os atendidos recebem alimentação, corte de cabelo, banho e roupas. Aqueles que expressam o desejo de deixar o vício, passam por uma triagem social, jurídica e de saúde, e, de acordo com a disponibilidade de vagas, são encaminhados para os abrigos da organização.

O projeto hoje conta com 37 unidades em 8 estados do país, e possui atualmente mais de mil dependentes abrigados. Além disso, atendem diariamente cerca de 400 pessoas na Cracolândia com seus serviços. Na Cristolândias, os alunos estudam violão, tambor, tamborim, bumbo, pandeiro, triângulo, bateria, canto coral e teclado. Para que todos os trabalhos sejam oferecidos gratuitamente, o movimento conta com doações, ofertas e parcerias para o sustento dos missionários e profissionais que atuam no programa.

E não para por aí. Em maio de 2015 foi inaugurada a Cristolândia Criança, uma ação  que surgiu a partir de um ofício encaminhado aos batistas pela Vara de Infância e Juventude de Guarulhos, solicitando a implantação de uma unidade para reabilitação de crianças e adolescentes usuários de drogas no município. No programa, as crianças usuárias de drogas são encaminhadas para medida de acolhimento e também acompanhadas pelo Serviço de Convivência e Fortalecimento de Vínculos da instituição.

Além da Missão Batista Cristolândia, a reportagem Igrejas atuam onde Estado não pisa para atender usuários na Cracolândia, do jornal Folha de S. Paulo, relata ainda outros grupos cristãos, de católicos e protestantes, que operam de maneira determinada e bem planejada no resgate e cuidados a dependentes químicos.

Do outro lado, Dória atua ao mesmo tempo em que atropela todos os processos, sem saber bem o que fazer. A ação no local, inicialmente, seria do Governo do Estado, contando inclusive com a supervisão em tempo real de Geraldo Alckmin. O que ocorreu, porém, foi que o gestor da cidade roubou a cena visitando o local, divulgando um vídeo em seu Facebook e adotando um discurso mais ousado que do governador. Sem realizar quaisquer pesquisas prévias, planejamento e/ou estratégias futuras, o prefeito declarou: a Cracolândia acabou!

A ação foi feita sem que equipes municipais de assistência social e de saúde estivessem preparadas. Agora, João Dória negocia a saída de moradores de um albergue na Praça Princesa Isabel para que possa abrigar os dependentes químicos em situação de rua. Enquanto isso, cristãos continuam a agir de forma clara e eficaz na Cracolândia, dispostos a auxiliarem não apenas o Estado, mas o Reino.

​ Caos no Brasil

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Olhamos para Brasília e procuramos a quem culpar. Talvez não tenha sobrado um inocente. Corrupção, alianças erradas, suborno e tantas outras questões envolvendo políticos e grandes empresários invadiram quase todas as páginas dos jornais.

Caos no Brasil. Não pelo desastre político ou pela crise na economia, mas por nós: os brasileiros. Os chamados “cidadãos de bem”, que de bem mesmo passamos longe.

Nós, que passamos os últimos dias gastando todo nosso (pouco) vocabulário no Facebook, em posts revoltados e comentários cheios da razão. Nós, que priorizamos estar certos do que estar unidos, numa briga incessante de direita x esquerda sem enxergar que tudo é muito mais profundo do que isso. Nós, que não sabemos protestar nas urnas. Nós, que acatamos o que o Wilian Bonner fala e reproduzimos sem ao menos pesquisar ou ouvir de quaisquer outras fontes de informação.

Nós, que achamos uma carteira na rua, pegamos o dinheiro — seja ele pouco ou muito, o que vale é levar vantagem — e largamos apenas o objeto com os documentos, que poderiam ser devolvidos ao proprietário dos mesmos. Nós que furamos fila, pegamos troco a mais, passamos no sinal vermelho, mentimos para nossos filhos, gastamos mais do que podemos e gostamos de ver o outro se dar mal. Nós que somos hipócritas.

Caos no Brasil. Não pelo desastre político ou pela crise na economia, mas por nós: os brasileiros. Os chamados “cidadãos de bem”, que de bem mesmo passamos longe.

— Jayane Condulo.

Sobre mim

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Olá. Prazer. Eu não deveria estar me apresentando, já que você passa por mim todos os dias. Toda hora. 365 dias no ano, praticamente. Até quando tira férias, pois aí me usa para passear. Passear, pois é. Passo para cima, passo para baixo. Eu sou aquela que está em constante “sobe e desce”, mas você não me percebe. Aliás, nasci para te auxiliar. Mas você também não vê isso.

Às vezes você passa rápido. Resmungando. Batendo o pé. Correndo. Às vezes, chega até a brigar com quem nem conhece, achando que está te atrasando. Noutras vezes, o cansaço te abate e impede teus nervos de recusar a única coisa que posso te proporcionar: alguns segundos de descanso.

O paulistano insiste em deixar a esquerda livre, não sei bem o porquê. Já fui programada para estar em movimento, fui pensada para te aliviar. Mas o paulista insiste em deixar a esquerda livre. Não tem problema, assim pelo menos posso confortar os que realmente precisam de amparo, mesmo que seja por um período quase insignificante. São Paulo já é tão corrida por natureza, que vocês não me dão nem a chance de ajudar.

Até mesmo o “não-paulistano”, acolhido na cidade por seus empregos e sonhos, faz daqui sua morada. Adota a cultura da metrópole e anda apressado também sem me notar. Mesmo assim, eu o noto. Jovens, senhores, grávidas, nenéns. Negros, brancos, loiros, crespos, altos, baixos, gordos, magros, olhos puxados. Simpáticos, falantes, retraídos, irritados. Para mim, seres humanos, apenas. Para vocês, eu sou apenas uma máquina.

Prazer, sua escada rolante.

— Ana Osmak e Jayane Condulo