CRÔNICAS

Os pecados em minha testa

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Ontem eu pequei.
Dormi com um homem que não era meu.

Ontem eu tinha um nome.
Até descobrirem quem sou.

Já não sou quem antes era,
Sou o que eu fiz.

Antes Maria,
Hoje prostituta.

Disseram-me que meu pecado ficaria estampado em meu rosto pra sempre.
Um fardo a ser carregado, uma mácula marcada de sangue.
Meu pecado é minha identidade de hoje em diante.

Do meu rosto escorriam gotas dos riscos que formavam uma palavra em minha testa.
Do coração escorria a dor. Dos olhos, a tristeza da humilhação.

Corri, fugi, me entreguei.

Encontrei uma luz, era como um espelho refletindo o sol.
Cheguei perto e olhei pra mim, tentando ver as marcas deixadas pelas minhas escolhas.
Expostas, nuas, cruas, minhas.

Olhei e vi.
Um espelho, meu rosto, eu.
Não havia sangue, não havia nome, não havia pecado.

Quando a luz apagou eu percebi.
O espelho era um homem, era ele.
Marcado, sofrido, espancado.
Em sua pele escorria o sangue de palavras escritas por pontas afiadas, marcadas durante séculos.
Suas mãos furadas, assim como seus pés.

Sobre sua cabeça, uma placa.
Não seu nome, mas o que diziam sobre ele.
“Rei dos Judeus”

Em suas feridas, marcadas por homens cruéis, uma profecia:
“O castigo que nos trouxe paz estava sobre ele, e pelas suas feridas fomos curados”.

Então Ele me disse:
– Maria, deixei que escrevessem em mim a verdade sobre vocês. Cada corte, cada ferida. Eu me tornei como vocês, para que vocês pudessem se tornar como Eu. Pra que nunca mais fizessem com vocês, o que fizeram comigo. Decidi trazer no meu corpo as marcas das ações de vocês, pra que vocês sempre pudessem ter a chance de recomeçar sem elas.

Vem ver, não há marcas em você! Elas foram escritas em mim. Vai, pode recomeçar!

— Sarah Furtado

​ Caos no Brasil

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Olhamos para Brasília e procuramos a quem culpar. Talvez não tenha sobrado um inocente. Corrupção, alianças erradas, suborno e tantas outras questões envolvendo políticos e grandes empresários invadiram quase todas as páginas dos jornais.

Caos no Brasil. Não pelo desastre político ou pela crise na economia, mas por nós: os brasileiros. Os chamados “cidadãos de bem”, que de bem mesmo passamos longe.

Nós, que passamos os últimos dias gastando todo nosso (pouco) vocabulário no Facebook, em posts revoltados e comentários cheios da razão. Nós, que priorizamos estar certos do que estar unidos, numa briga incessante de direita x esquerda sem enxergar que tudo é muito mais profundo do que isso. Nós, que não sabemos protestar nas urnas. Nós, que acatamos o que o Wilian Bonner fala e reproduzimos sem ao menos pesquisar ou ouvir de quaisquer outras fontes de informação.

Nós, que achamos uma carteira na rua, pegamos o dinheiro — seja ele pouco ou muito, o que vale é levar vantagem — e largamos apenas o objeto com os documentos, que poderiam ser devolvidos ao proprietário dos mesmos. Nós que furamos fila, pegamos troco a mais, passamos no sinal vermelho, mentimos para nossos filhos, gastamos mais do que podemos e gostamos de ver o outro se dar mal. Nós que somos hipócritas.

Caos no Brasil. Não pelo desastre político ou pela crise na economia, mas por nós: os brasileiros. Os chamados “cidadãos de bem”, que de bem mesmo passamos longe.

— Jayane Condulo.

Sobre mim

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Olá. Prazer. Eu não deveria estar me apresentando, já que você passa por mim todos os dias. Toda hora. 365 dias no ano, praticamente. Até quando tira férias, pois aí me usa para passear. Passear, pois é. Passo para cima, passo para baixo. Eu sou aquela que está em constante “sobe e desce”, mas você não me percebe. Aliás, nasci para te auxiliar. Mas você também não vê isso.

Às vezes você passa rápido. Resmungando. Batendo o pé. Correndo. Às vezes, chega até a brigar com quem nem conhece, achando que está te atrasando. Noutras vezes, o cansaço te abate e impede teus nervos de recusar a única coisa que posso te proporcionar: alguns segundos de descanso.

O paulistano insiste em deixar a esquerda livre, não sei bem o porquê. Já fui programada para estar em movimento, fui pensada para te aliviar. Mas o paulista insiste em deixar a esquerda livre. Não tem problema, assim pelo menos posso confortar os que realmente precisam de amparo, mesmo que seja por um período quase insignificante. São Paulo já é tão corrida por natureza, que vocês não me dão nem a chance de ajudar.

Até mesmo o “não-paulistano”, acolhido na cidade por seus empregos e sonhos, faz daqui sua morada. Adota a cultura da metrópole e anda apressado também sem me notar. Mesmo assim, eu o noto. Jovens, senhores, grávidas, nenéns. Negros, brancos, loiros, crespos, altos, baixos, gordos, magros, olhos puxados. Simpáticos, falantes, retraídos, irritados. Para mim, seres humanos, apenas. Para vocês, eu sou apenas uma máquina.

Prazer, sua escada rolante.

— Ana Osmak e Jayane Condulo

Eu não quero morar na periferia

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Minha mãe começava a guardar nossas coisas em caixas, fazia três meses que meu pai havia morrido. Ele era policial militar e, ao contrário do que muitos pensam, morreu de infarto e não em serviço. Agora que não temos mais ele, minha mãe disse que precisamos nos mudar, pois morar onde moramos ficou caro.

— Mãe, eu não quero morar na periferia.

— Por que não meu filho?

— Por que a polícia da periferia mata.

— Não diga bobagens menino, a mesma polícia de lá é a polícia daqui.

Minha mãe, que há 40 anos morava no Ipiranga, bairro nobre na zona sul de São Paulo, nunca parou pra pensar no que eu estava dizendo.

— Não mãe, a polícia daqui não é a mesma de lá. Aqui eles nos dão bom dia, sorriem pra todos e, quando algo acontece, eles averiguam com toda a educação.

— Igual à polícia de lá.

— Claro que não, mãe. Lá polícia não entra no bairro, ela invade como se estivesse entrando em uma zona de guerra. Como se todo mundo lá dentro fosse criminoso!

— De onde foi que você tirou isso? — minha mãe que antes arrumava as coisas agora me olhava atenta.

— De todo o lugar mãe! O papai sempre dizia isso, que quando era mandado pra fazer ronda no Morumbi, seus chefes diziam que ele deveria agir de um jeito totalmente diferente do jeito que agia quando estava na Cidade Tiradentes.

Como todo filho, eu sentia falta do meu pai. Ele era um bom homem, pelo menos eu acho que era. Nem todo policial é mau. Eu nunca vi meu pai em ação, mas acho que ele era diferente, não por ser meu pai, mas por tudo que ele me ensinou sobre moralidade e respeito.

— O Jardim Pantanal é um bairro bom — minha mãe voltou a prestar a atenção nas coisas que estava arrumando, não parecia estar muito interessada naquele assunto.

— Todo bairro é bom mãe, o problema é como o bairro é visto.

— E como ele é visto?

— Como a grande imprensa mostra mãe, que nas periferias só mora bandido, que são bairros perigosos, e nós acreditamos nisso, mas não é verdade. Eu conheço pessoas da periferia, são gente como a gente.

— Eu sei que são boas pessoas, por isso nós vamos nos mudar pra lá.

— A pessoas são, mas a policia não! — Eu já começava a me irritar, mas minha mãe parecia não entender meu ponto de vista — Se nos mudarmos pra lá, eu vou ser enquadrado.

— Não diga bobagens, você só tem 13 anos.

— Pois eu conheço meninos com 10 anos que já até apanharam da polícia.

— Por que alguma coisa fizeram. Se você não fizer nada, não tem porque se preocupar.

— Está vendo? É isso que eu quero dizer, olha o seu preconceito ai. Nem todo mundo que a polícia enquadra é culpado. Eu vou ser enquadrado de qualquer jeito.

– Por quê?

— PORQUE EU SOU NEGRO MÃE — agora não dava mais pra segurar, eu gritava e as lágrimas escorriam — Porque eu gosto de andar de chinelo e regata, de ficar até tarde na rua jogando bola, de ficar sentado na calçada jogando conversa fora e porque nós vamos morar na periferia e é assim que a polícia trata quem mora lá. Ela enquadra, ela bate, ela xinga e depois diz que nós que começamos.

— Aqui a polícia nunca te bateu.

— Porque eles me vêem na rua com você que é branca. Porque eles me vêem com os filhos dos vizinhos que só andam bem vestidos. Por que eles sabem que eu moro aqui e que meu pai era policial.

Agora, a ficha da minha mãe parecia cair. Durante um tempo ela ficou estática e não disse mais nada. Parou de arrumar as coisas e foi embora para o seu quarto fechando a porta.

Naquele dia ninguém tocou mais no assunto, nem no dia seguinte e nem na semana seguinte. Minha mãe fez o que muitas pessoas fazem, fechou os olhos para uma realidade pouco mostrada e se calou por não saber como agir ou por ter medo de agir.

— Rosângela Tomás.

Pós 2016

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Acabou. O “pior ano” de quase todo mundo, acabou. Será? Pós 2016 e eu te pergunto: o que muda? Ou, seria mais correto questionar o que nós faremos para mudar tudo o que foi de ruim no ano mais detestado da história?

Pós 2016 e continuamos achando que a cultura do estupro não existe, que 30 homens não estavam errados. Pós 2016 e ainda estamos alienados em joguinhos do celular enquanto andamos na rua, ou em games que assassinam meninos na madrugada. Pós 2016 e continuamos comemorando o Brasil “para gringo ver”, como se não tivesse bulling e racismo dentro de casa.

Não, não mudamos. Vamos continuar cuidando da vida alheia assistindo BBB e pulando Carnaval, para depois falar mal de ambos. Vamos continuar protestando com a camisa da CBF que não é corrupta, acatando o discurso totalmente partidário da grande mídia. Continuamos sem saber explicar o que é a Lava a Jato e sem saber escrever (e nem pronunciar) a palavra impeachment. E, falando em impeachment, vamos continuar elegendo políticos que vimos votar  a favor do processo, mas não pelo contexto em sim, mas “por Deus, pelos pais, pelos filhos, pela tia Eurides e pela paz em Jerusalém (!)”.

Aliás, vamos continuar protestando contra a corrupção, mas furando a fila no mercado, sendo caloteiro, mentindo pra todo mundo, criticando a política do país sem lembrar em quem a gente votou.

E, depois de tudo isso, vamos continuar usando a frase “o Brasil não vai pra frente” pra maquiar nossa hipocrisia diária. Pós 2016 – o que muda pra você?

— Jayane Condulo.

A contabilidade do azeite

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Milênios antes de “As Crônicas de Gelo e Fogo” ser escrita, outra história épica cheia de ação, rainhas más, profetas zangados e batalhas sangrentas acontecia no curso da História. Trata-se da narrativa bíblica-histórica de Crônicas e Reis, um prato cheio para quem gosta de um enredo rico em aventuras.

Uma dessas histórias descreve uma viúva pobre em apuros financeiros*. Além da tragédia de perder o marido e ficar sozinha com dois filhos pequenos para criar, o montante devedor  era tão alto que seus filhos seriam levados como escravos, a fim de quitar a dívida. Um drama.

Totalmente desesperada, ela procurou o profeta Eliseu e contou seu dilema. Este, pergunta:

— O que você tem em casa?

— Nada, apenas uma vasilha de azeite — ela responde.

E então, a história assume seu desfecho maravilhoso e sobrenatural. O profeta orienta a mulher a pedir vasilhas emprestadas dos vizinhos e ir enchendo com o azeite que ela já tinha. Assim ela o fez. E, enquanto houve vasilhas, o azeite não acabou. A viúva vendeu o azeite, quitou as dívidas e viveu feliz com seus filhos.

Eis algumas lições maravilhosas que esse texto nos ensina:

Na história da vida, haverá situações em que você será responsável pelo papel do profeta. Quando esse for o caso, você deve estar preparado para ajudar quem vier buscar socorro em você. E quando acontecer, simplifique.

A pessoa desesperada geralmente não consegue seguir uma linha de pensamento prático, então ajude-a a organizar um plano sistemático e simples.  “O que você tem em casa?”; “Quais são seus recursos?”; “O que você sabe fazer?”; são perguntas lógicas e de extrema utilidade para começar a se organizar. Interessante é notar que não existe pessoa pobre demais que não tenha algo que se possa utilizar, apenas é preciso desembaçar o olhar, e esse é o papel do profeta. Ajude pessoas a enxergarem seus dons, valorizar o que possuem.

  1. CONFIE NAS PESSOAS QUE POSSAM TE AJUDAR. Quando o enredo mudar e você se vir no papel da viúva pobre, apenas lembre-se: Não importa quantas pessoas você perdeu na vida, sempre haverá alguém disposto a te ajudar. O ser humano foi feito para viver em sociedade, como John Donne escreveu “ninguém é uma ilha”, eventualmente precisamos uns dos outros e isso é bom, não é fraqueza nenhuma admitir que precisa de ajuda.
  2. USE O QUE VOCÊ TEM. Na hora da crise, não procure soluções mirabolantes, não se meta em dívidas para quitar dívidas, não se desespere. Use o que você tem à seu favor. Talvez você desenhe bem, faz uma maquiagem bacana, assa uns bolos que todo mundo adora. Pense em como você pode usar esses talentos que até ontem eram apenas hobbies para rentabilizar. Atualize-se, assista tutoriais e se puder, faça cursos de aperfeiçoamento. Melhore o que você já sabe fazer.
  3. PENSE GRANDE. Quando o profeta disse à viúva que pedisse aos vizinhos vasilhas emprestadas, talvez ela tenha pedido apenas uma ou duas. Olhou para a quantidade de azeite que tinha e deve ter pensado: “mas é tão pouco, mal encherá uma vasilha…” Penso que a surpresa da mulher foi imensa em ver que quanto mais ela colocava, mais o azeite rendia. Quando se trata dos seus dons e habilidades, acredite, a fonte de onde jorra seu talento é inesgotável. Criatividade é um recurso que quanto mais se usa, mais se tem, não economize. Pegue todas as vasilhas que puder e confie em si mesmo.
  4. USE SUA FÉ. Entenda que na vida, nem tudo depende de nós. Há coisas que só o Dono da existência pode fazer, mas isso não é problema seu, já que não é de sua alçada. Então, pare de se preocupar com o que não consegue fazer e foque no que pode ser feito. Deixa com Deus o que for de Deus e cuide da sua parte. Primeiro ponha o pé, que Deus providencia o chão. Prepare suas vasilhas que o azeite é com ele.

Essa é uma história interativa, foi escrita há milhares de anos, mas o azeite continua jorrando da vasilha da viúva pobre através dos séculos. Pegue quanto quiser.

— Raquel Condulo.


*II Reis 4.1-7

Raquel Condulo é cristã e artesã na Arte e Graça – Artigos para casa e presentes em MDF.

Não dê esmolas

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Estava no metrô de São Paulo quando, de repente, ouvi uma voz berrando no microfone de avisos: “Não dê esmolas”. A forma nada doce com que a funcionária da companhia alertou os usuários me chamou a atenção, e sua insistência perambulou pelos meus ouvidos ao longo do dia.

Existem diversas campanhas no país inteiro intituladas “não dê esmolas”. Algumas até bem sérias, com um telefone indicando para abrigos que possam atender um morador de rua, por exemplo. Não era o caso do Metrô. Fiquei, então, me perguntando o por que de tanta agressividade na frase. Tanto na CPTM quanto no Metrô, é expressamente proibido pedir esmolas ou apresentar-se em condições que causem transtorno ou repugnância aos demais usuários.

É incrível como falar sobre esmolas nos coloca no extremo da superioridade. Ou você não dá esmolas por nojo e irritância por tê-lo incomodado, ou você dá esmolas para pura e simples massagem do ego. Se você financia instituições carentes mas ignora crianças no farol, você não é uma pessoa suficientemente boa. Se você dá esmolas mas não tem coragem de abraçar esse mesmo maltrapilho ou levá-lo em seu carro até um lugar que o acolha melhor, você também não é tão bom quanto parece.

O metrô não quer que você dê esmolas pois será um usuário a menos para lhe gerar lucros. Mas, no fundo, você mesmo não quer dar esmolas. Não está nem um pouco interessado em ajudar outro alguém. Só doa roupas na “campanha do agasalho” porque é bonito ou é algum conhecido seu que está organizando. Nunca pagou um almoço para um necessitado, mas paga o almoço do chefe pra conseguir uma promoção. E, mesmo se der esmolas, nunca será com a moeda de mais valor. Jamais será com uma nota. Cinco centavos são suficientes para manter sua consciência limpa, na doce ilusão de que ajudou o país naquele dia.

Não dê esmolas. Também não dê pão ou bolachinha. Nem doe seu dinheiro à instituições de caridade. Não ajude o próximo. De jeito nenhum. Não faça nada apenas para massagear o seu “eu”.

— Jayane Condulo.