MATÉRIAS

Cristãos x Cracolândia: onde a Igreja estava enquanto Dória atuava?

Por Jayane Condulo

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Era uma manhã de domingo quando o burburinho começou.  Antes mesmo do relógio pontuar 7h, o barulho de bombas acordava os moradores da região e surpreendia os desavisados no local.

Há quase três semanas, quase não se fala em outra coisa que não seja a ação policial  curta e grossa  na Cracolândia de São Paulo, sob o comando do atual prefeito João Dória. Desde então, as redes sociais dos brasileiros, como um todo, foram tomadas por postagens sobre o assunto, exibindo críticas das mais variadas e até mesmo contestáveis. Inclusive em perfis cristãos.

Enquanto vários religiosos alimentavam suas páginas no Facebook com opiniões aparentemente formadas e concretas, um grupo muito peculiar trabalhava arduamente para tentar sanar o problema da Cracolândia.

A Missão Batista Cristolândia atua há 8 anos na região resgatando pessoas em situação de rua e dependência química. Os atendidos recebem alimentação, corte de cabelo, banho e roupas. Aqueles que expressam o desejo de deixar o vício, passam por uma triagem social, jurídica e de saúde, e, de acordo com a disponibilidade de vagas, são encaminhados para os abrigos da organização.

O projeto hoje conta com 37 unidades em 8 estados do país, e possui atualmente mais de mil dependentes abrigados. Além disso, atendem diariamente cerca de 400 pessoas na Cracolândia com seus serviços. Na Cristolândias, os alunos estudam violão, tambor, tamborim, bumbo, pandeiro, triângulo, bateria, canto coral e teclado. Para que todos os trabalhos sejam oferecidos gratuitamente, o movimento conta com doações, ofertas e parcerias para o sustento dos missionários e profissionais que atuam no programa.

E não para por aí. Em maio de 2015 foi inaugurada a Cristolândia Criança, uma ação  que surgiu a partir de um ofício encaminhado aos batistas pela Vara de Infância e Juventude de Guarulhos, solicitando a implantação de uma unidade para reabilitação de crianças e adolescentes usuários de drogas no município. No programa, as crianças usuárias de drogas são encaminhadas para medida de acolhimento e também acompanhadas pelo Serviço de Convivência e Fortalecimento de Vínculos da instituição.

Além da Missão Batista Cristolândia, a reportagem Igrejas atuam onde Estado não pisa para atender usuários na Cracolândia, do jornal Folha de S. Paulo, relata ainda outros grupos cristãos, de católicos e protestantes, que operam de maneira determinada e bem planejada no resgate e cuidados a dependentes químicos.

Do outro lado, Dória atua ao mesmo tempo em que atropela todos os processos, sem saber bem o que fazer. A ação no local, inicialmente, seria do Governo do Estado, contando inclusive com a supervisão em tempo real de Geraldo Alckmin. O que ocorreu, porém, foi que o gestor da cidade roubou a cena visitando o local, divulgando um vídeo em seu Facebook e adotando um discurso mais ousado que do governador. Sem realizar quaisquer pesquisas prévias, planejamento e/ou estratégias futuras, o prefeito declarou: a Cracolândia acabou!

A ação foi feita sem que equipes municipais de assistência social e de saúde estivessem preparadas. Agora, João Dória negocia a saída de moradores de um albergue na Praça Princesa Isabel para que possa abrigar os dependentes químicos em situação de rua. Enquanto isso, cristãos continuam a agir de forma clara e eficaz na Cracolândia, dispostos a auxiliarem não apenas o Estado, mas o Reino.

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Gay e cristão? Entenda o movimento Jesus Cura a Homofobia

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Por Jayane Condulo

Você já deve ter ouvido falar na Cura Gay, mas conhece a cura homofóbica? Um grupo de cristãos, em São Paulo, decidiu realizar um ato na Parada Gay de 2015, pedindo perdão pelos erros que as igrejas cometem contra homossexuais e transexuais.

A ação acabou se tornando em um movimento, chamado Jesus Cura a Homofobia, fundado pelo teólogo José Barbosa Junior (46), com o apoio de um amigo. Hoje, o movimento conta com cerca de 40 voluntários espalhados por 5 estados brasileiros, e o intuito é alcançar todo o país. A ideia é espalhar que é possível, sim, ser gay e cristão (ao mesmo tempo), excluindo a condenação comum em igrejas tradicionais.

Confira abaixo a entrevista exclusiva de José Barbosa para o Rotineiras, e entenda melhor o movimento, seus questionamentos e confrontos espirituais.

De onde veio a ideia de criar o movimento “Jesus Cura a Homofobia” e como você conseguiu mobilizar as pessoas?

A ideia surgiu de uma forma totalmente inesperada. Desde 2013, circula na internet uma foto da Parada Gay de Chicago [com um cristão abraçando um homossexual], e desde que eu vi aquela foto, mexeu muito comigo. Afinal, eu vi um caso de perto, de um rapaz homossexual em Teresópolis, que se converteu na minha igreja e tentou de várias formas se curar daquilo. Ele dava testemunhos até, mas todo mundo olhava e falava “é bicha, todo mundo tá vendo, não tem como”, e esse “bicha” não tem nenhum tom pejorativo, mas a gente olhava e dizia “não dá”. Ele ficou na igreja o tempo todo sofrendo bullying, até que não aguentou mais e saiu, injetou silicone no corpo todo e hoje é uma trans. E eu fiquei pensando: “no que a gente errou?”. Quando eu vi a foto, aquilo ficou dentro do meu coração por muito tempo. Aí eu estava em São Paulo, em 2015, e ia ter a Parada Gay, e uns dias antes da Parada eu vi essa foto de novo. Falei: “vou fazer isso”. Só que, detalhe: eu decidi fazer isso na terça-feira antes da Parada, que seria no domingo. Aí chamei um amigo meu, o Silas Fiorotti, na quarta-feira a noite, na Livraria Cultura da Av. Paulista. Falei pra ele: “Silas, vamos fazer isso?”. Ele faz parte do Coletivo por uma Espiritualidade Libertária, e topou. Aí ele perguntou o que a gente iria usar, qual seria nosso lema, e por mim o nosso tema poderia ser o mesmo de Boston, pedindo perdão. Ele falou “não cara, aí vamos imitar demais, vamos pensar numa coisa nossa”. Na hora, me veio a frase “Jesus Cura a Homofobia”. O olho dele arregalou e ele disse “é isso!”. Aí pronto. Mas e aí, quem vai? Saímos de lá já decididos do nome e tal, cheguei em casa às 23h e publiquei a ideia, que eu e um amigo faríamos um ato na Paulista no domingo etc. Aí começou. Nisso, um amigo virtual meu fez a arte do Jesus Cura a Homofobia. E eu falei “como assim?” (risos). Um outro amigo falou pra criar um evento no Facebook, aí eu peguei a arte, usei como fundo, criei o evento e comecei a divulgar. Aí começou: 10, 20, 30, 40, 50… 400 pessoas. Falei “cara, se for todo mundo, vai dar um rolo danado”. Mas muita gente estava ali como um apoio, gente do Brasil inteiro falando que iria. Até então, eu já achava aquela coisa toda enorme. Na quinta-feira, meio dia, me liga uma menina da Folha de S. Paulo, querendo saber sobre o ato, e eu já espantado com aquilo! Ela fez a entrevista comigo pelo próprio Facebook, depois ela me ligou e passou quase 40 minutos falando comigo, querendo conhecer mais o contexto. E aí foi uma coisa curiosa, porque eu lembro que eu estava num evento na Ibab [Igreja Batista da Água Branca, em São Paulo], e ela me ligou, conversamos bastante, depois de 5 minutos ela me ligou de novo, e falou “José, eu tô vendo aqui no Facebook que você é casado com a fulana, é verdade?”. Na época, eu ainda estava casado, aí falei que sim, e ela “mas então, você é hétero?!” (risos) E aí foi interessante, porque ela quis saber o por que eu estava fazendo aquilo. Foi a minha chance pra dizer que a minha percepção do evangelho é essa, e ela achou isso lindo e fez questão de frisar na reportagem, que é a coisa de você levantar pra lutar por algo que não é a sua realidade. A reportagem saiu no sábado de manhã na Folha, e aí o evento de 400 pessoas pulou para 5 mil. Eu falei “cara, é outra Parada no meio da Parada”, desesperado. Bom, ali eu senti que o negócio se transformou numa coisa bem maior do que a gente imaginava. Eu só ia fazer um ato na Av. Paulista, não tinha ideia de criar um movimento, era só um ato. Mas nós, como crentes, acreditamos que há um movimento do Espírito Santo que faz as coisas acontecerem, e aconteceu. Na Parada, só apareceram 25 pessoas, ainda bem, mas a repercussão disso foi a absurda, eu não tinha noção de onde aquilo ia parar. Desde o dia 14 de junho de 2015, a minha vida mudou. Só naquela semana, eu tive uma média de 800 mensagens no Facebook, algumas que não respondi até hoje, pois não consegui dar conta! Gente do Brasil inteiro contando histórias muito parecidas: gays, de igreja, expulsos de casa ou que não foram expulsos porque não assumiram ainda. Aí você vê que a realidade pede um movimento.

E como foi a experiência na Parada Gay?

Foi mais maravilhoso do que a gente imaginava! Era engraçado porque a faixa ficou bem curiosa. O “Jesus Cura” era grande e “a Homofobia” menor, então tinha gente que olhava o cartaz e já vinha pra brigar com a gente, achando que era a “Cura Gay”. Só que, quando olhavam os outros cartazes que o pessoal estava carregando, bom… a gente perdeu a conta de abraços, choros e de tudo o que a gente viveu naquele dia. Quando passou o último trio elétrico, era uma drag queen que estava falando, e quando ela passou por nós pediu para o caminhão parar e leu todos os cartazes, todos. E ela falou “esse é o tipo de igreja que a gente sonha no nosso país”. Aquilo, pra mim, valeu tudo. Não tem preço sabe, não dá pra mensurar, e eu vi que Deus estava naquilo. Foi uma experiência de abraços, gente chorando, e quando eu cheguei em casa já tinham mais de mil solicitações de amizade. Um negócio doido!

Como os familiares reagiram à ideia do movimento?

Foi tranquilo, porque a minha família me conhece! (risos). Mas a mãe da minha filha insinuou coisas sobre mim, mas ela fez isso mais por uma acusação de peso espiritual, ela e o pastor dela, aliás. Porque, o que aconteceu foi que a minha filha começou a concordar com as minhas ideias, e ela tinha 15 anos na época. Então, para dissuadir minha filha dessas ideias, disseram isso. Foi um absurdo. Para a mãe dela, eu estou pervertendo a fé da minha filha!

Você lavou os pés da transexual Viviane Beleboni (que desfilou crucificada na Parada Gay de 2015). Como foi essa experiência?

Foi o seguinte, quando eu vi a cena da Viviane, entendi a mensagem na hora. Eu não vi sacrilégio nenhum naquilo, vi exatamente o que ela queria passar: “nós, transexuais, somos crucificadas”. E, quando você conhece a realidade transexual, você se assusta. Por exemplo, a expectativa de vida de uma trans no Brasil é de 35 anos, metade de uma pessoa “comum”. Isso não é normal, não pode ser normal. Imagina chegar aos 30 anos e pensar “eu vou morrer a qualquer momento”, seja assassinado, de doença, etc. A sociedade vai excluindo e depois culpa a pessoa, principalmente no caso de trans, pois já começam a aflorar a transexualidade desde pequenos. Muitos são rejeitados pela família; na igreja então, nem se fala; deixam de ir para a escola. Então, não têm formação, não têm família, não têm nada e precisam se manter na vida, aí vão para a prostituição. Aí são pobres, mas têm que injetar silicone no corpo de qualquer jeito, literalmente, e isso traz problemas sérios para a saúde. Além disso, tem a questão da violência, então a  expectativa de vida é horrível. Mas, voltando à Viviane, duas semanas depois da Parada, o pessoal resolveu fazer um ato inter-religioso de desagravo. Engraçado, ela saiu crucificada na Parada, mas foi realmente crucificada depois, por todo mundo. Então, resolvemos fazer esse ato lá no Largo do Arouche, tinha um padre, um representante judeu, um muçulmano, várias entidades religiosas. Como no cristianismo temos o “lavar dos pés”, eu tive a ideia de fazer isso como um símbolo de perdão e de total serviço, pois a ideia é essa que estamos aqui para servir. Então, levei a bacia, chamei o padre e ele topou. Não tinha ninguém lá de imprensa, mas todo mundo fotografou pois foi um momento marcante daquele dia, e depois isso ganhou a rede, de uma forma que chegou a ser publicado até em um jornal da Alemanha. Então, o negócio correu o mundo. E essa era a percepção que a gente tinha: “perdoe-nos, estamos aqui para te servir”. Foi uma experiência muito marcante, a Viviane chorou muito, a gente chorou muito.

O movimento tem algum tipo de ação social para homossexuais?

Isso é o que a gente ainda está bolando. Primeiro, queremos montar uma rede de pastores, padres, líderes religiosos que trabalhem nessa perspectiva. Porque eu recebo muito email de outros estados, e aí eu tenho que tentar, por telefone, conversar com a pessoa, com a família da pessoa e tentar fazer a mediação. A ideia é ter alguém em diferentes regiões para fazer isso, visitar a família, conversar, aconselhar. Uma outra ideia é uma ação que estamos tentando estruturar há um ano, mas precisamos de igrejas que topem fazer. É uma ação em conjunto com a ONG Mães pela Diversidade, levando palestras nas igrejas, divididas em três tempos: a Bíblia e a homossexualidade; mãe e a descoberta da homossexualidade do filho; e a experiência do próprio filho. Acho que essa tríade de palestras pode mudar muita coisa nas igrejas, pois tem identificação. Uma mãe falando em uma igreja tem autoridade maior que o pastor, porque a mãe que ouvir vai se identificar, é a empatia. Então, se a gente conseguir entrar nas igrejas com esse tipo de ação, creio que pode ter uma repercussão muito grande. Quando um gay procura a gente pedindo recomendação de igreja, é um caso sério. Tem as igrejas inclusivas, mas elas têm problemas ainda mais sérios, pois vai o aceitar como gay mas vai continuar com regras de uma igreja normal, e condenando os outros, que é o pior! Hoje, das igrejas inclusivas, a única que recomendo de olhos fechados é a ICM (Igreja da Comunidade Metropolitana), porque ela trabalha numa perspectiva de direitos humanos, então é libertária em todos os sentidos, não só sobre orientação sexual. É realmente uma teologia abrangente, e isso pra mim é fundamental. Mas, às vezes, o cara não quer, ele quer ir para uma igreja tradicional, e aí eu explico como vai ser. Enfim, ainda precisa de muitos ajustes para o que a gente quer fazer. Teve gente do Brasil inteiro querendo replicar a ideia, e aí começou um outro problema. A Lagoinha [igreja batista em Belo Horizonte, conhecida pelo seu ministério de louvor Diante do Trono], por exemplo, usou o termo Jesus Cura a Homofobia no ano seguinte em um evento deles. Só que não foi no mesmo sentido que a gente. Lá é “Jesus cura a homofobia”, mas o gay tem que deixar de ser gay. Então, eu reuni todo mundo que participou na Parada e disse qual era minha linha de raciocínio, e todo mundo concordou. Então formamos um documento base (ainda estamos construindo mas já tem algumas coisas), para passar pra todo mundo que queira fazer também, em qualquer parte do país. Ninguém vai usar Jesus Cura a Homofobia para falar outra coisa, algo que a gente não fala. A gente não fala que o gay tem que se transformar, a gente fala que ele vai continuar gay. Gay e cristão. Muita gente pensou que era só uma isca, do tipo fingir que aceita para trazer a pessoa, como a maioria das igrejas fazem. Mas não, é realmente abraçar a ideia de que se é aquilo. Eu comecei a conhecer de dentro, as histórias que eu ouvi, as pessoas que eu ouvi, me fizeram rever coisas que eu não tinha pensado a minha vida inteira. Depois que se ouve essas pessoas, não dá para continuar sendo o mesmo. Ouvir alguém falar “eu sempre gostei de meninos, e sempre amei Jesus”, como dizer para essa pessoa que não? Como dizer que ela não ama Jesus, porque se amasse gostaria de mulher? Não é assim.

Mas, a Bíblia não condena as práticas homossexuais?

Não. Estou escrevendo um livro que é justamente sobre isso, onde faço uma releitura de todos os textos que, a princípio, condenam. Primeiro, a gente tem que definir o que é a homossexualidade. Uma coisa é o ato sexual, como era praticado no Antigo Testamento, como domínio, manifestação de poder. Quando uma cidade conquistava a outra, a primeira coisa que faziam era estuprar as mulheres, porque o sexo era a forma de mostrar domínio. Em alguns casos, eles estupravam os homens também, exatamente para subjugar. Então, a condenação no Antigo Testamento é sócio-política. “Homem não deve se deitar com homem”, porque homem foi feito para dominar, e a mulher que era dominada, não o homem. O que está por trás é esse pensamento. O relacionamento afetivo é uma questão moderna, até para os heterossexuais. Casar por amor, por exemplo, é algo do nosso tempo, é recente. Por isso eu digo que a igreja tem que estar se reinventando sempre, pois quando se fala de homossexualidade hoje, se fala em afeto. E tem gente que não consegue sentir afeto por outro sexo. Então, pegar isso no Antigo Testamento e trazer para cá é um desastre, pois não é relação de afeto, é relação de poder. Quando vamos para o Novo Testamento, encontramos problemas mais sérios ainda. Tem um texto em Romanos, por exemplo, que é em um contexto de culto, e não de relacionamento. Em Roma, as orgias eram cultuais, e a condenação ali era para os cultos em que “ninguém é de ninguém”. As pessoas estão indo para a igreja e levando esses costumes, e era isso que estava sendo condenado. Por isso é necessário uma leitura da época, para não fazer uma leitura totalmente equivocada. Outra coisa: não havia homossexuais na época de Jesus? Claro que havia, sempre houve em todo a história. E o que Jesus fala sobre homossexualidade? Nada, absolutamente nada. Se fosse algo tão sério quanto a gente quer que seja, não acho que ele iria deixar passar em branco. Por exemplo, Jesus teve uma condenação muito mais clara ao divórcio e a gente não leva isso em conta, porque “os tempos mudaram”. E eu sou divorciado! Ninguém leva isso em conta. Nesse caso sim, tem que ver o contexto, a atualidade, etc, porque aí tem um interesse né.

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A indústria natalina não precisa do seu dinheiro

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Natal. Época de amor, comunhão e muitos, muitos presentes. Nem todos são sinceros e quase nunca úteis, mas eles sempre estão lá, debaixo da árvore ou passando de mão em mão no já conhecido amigo secreto.

Em tempos de crise, toda economia é bem-vinda. Menos nas festas de final de ano, não é mesmo? Nesse período, os preços disparam em lojas de todos os segmentos. Roupas, sapatos, eletrônicos e até as comidas típicas da data custam “os olhos da cara”. Com o atual momento do país, a indústria natalina se vê obrigada a subir o preço de seus produtos para sobreviver. E os consumidores, apesar de saírem perdendo, não abrem mão das compras.

Já que é pra gastar, por que não com presentes mais vantajosos? O consumidor que opta por algo artesanal, por exemplo, acaba saindo muito mais satisfeito.

“Você compra um produto personalizado, feito do jeito que escolher e com um material de qualidade. Além disso, ainda ajuda o pequeno empreendedor e, dessa forma, aquece a economia doméstica do país”, defende Raquel Condulo, artesã criadora da Arte e Graça que, há dois anos, oferece artigos para a casa e mimos em MDF.

Para quem gosta de surpreender, há ainda opções não palpáveis, como uma viagem simples, um piquenique, ou um dia no salão de beleza.

“Algumas realizações não estão em objetos que você dá para a pessoa. Quando uma mulher senta numa cadeira de um salão de beleza, por exemplo, ela não está apenas mudando o visual, mas está também mexendo com sua auto estima, com seu olhar diante do espelho”, explica Samuel Rodrigues, que trabalhou mais de 11 anos como cabeleireiro no centro de São Paulo e agora aplica a mesma qualidade profissional no Ateliê D’Capelle, na zona leste. “Um dia no salão de beleza tem o poder de mudança que qualquer mulher deseja, pois muda até o temperamento. É algo que a deixa feliz se estava triste,e espanta até a depressão. Esse é o diferencial do presente.”

Já para aqueles que gostam de presentear de forma saborosa, é possível fugir do comum panetone. Foi pensando nisso que, há cerca de um mês, Nathane Oliveira resolveu investir em seus dons na cozinha, criando o Mimos da Nah, onde vende brigadeiros gourmet. Ela ressalta a importância de saber a procedência do produto, ainda mais quando se trata de um alimento. “Hoje em dia é essencial a relação entre consumidor e fabricante. Essa troca de experiências é super positiva, pois é um contato direto e não através de um sac, email, chat ou telefone. É uma relação de confiança, pois sempre deixo claro os produtos que uso e meu modo de trabalhar.”

Assim, o Natal pode ficar mais doce, mais surpreendente, mais customizado. A grande indústria não precisa do seu dinheiro. Já não basta todas as outras datas em que ela nos consome, como a Páscoa, o Carnaval, o dia dos pais, das mães, das crianças, dos namorados. Até finados nos levam à falência! Nesse Natal, façamos o dinheiro chegar às pessoas comuns e não às grandes multinacionais.

— Jayane Condulo.

Semeando Alegria: unindo conhecimento e amor

ONG de Sorrisiologistas realiza workshop para universitários e convidados; objetivo é aproximar psicologia de ações sociais

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A Semana da Psicologia na Universidade Anhanguera (Belezinho), realizada anualmente para comemorar o Dia do Psicólogo,  recebeu na última terça-feira (23) os sorrisiologistas da ONG Semeando Alegria.

A Semeando Alegria que já é conhecida por levar amor, carinho e claro, muita alegria às crianças com câncer e também por emocionar a todos com os cantos de Natal em lares de idosos, está com uma nova proposta: um workshop para alunos de psicologia de diversos semestres da Anhanguera e convidados externos.

A ideia é linkar a psicologia com o trabalho de ações sociais. A princípio, os estudantes sentiram-se surpresos com a proposta, mas logo foram sensibilizados e entenderam a importância da união dos dois trabalhos.

A coordenadora do curso Lizandra Brandani, que abraçou a ideia sugerida pelo Dr. Esmigo (presidente da Ong Semeando Alegria), mostrou-se feliz e orgulhosa com o trabalho realizado naquela noite na Oficina Teatro Interpessoal com os Doutores da ONG Semeando. “Ficamos muito honrados com a presença de todos estes palhaços que semearam conhecimento na universidade”, declara.

Entre as diversas dinâmicas feitas pela Semeando, a que mais cativou os estudantes foi a dinâmica do abraço, onde ao som de uma música instrumental os alunos e convidados fizeram uma roda e passaram a se comunicar somente com o olhar e, por fim, deram um abraço em conjunto, caloroso e emocionante, capaz de quebrar tabus e trazer a sensação de alívio.

Para a equipe do Semeando, aquela que era uma experiência nova, tornou-se tão especial e importante quanto as outras. “Tudo fluiu naturalmente como nas apresentações para as crianças”, declarou o Dr. Esmigo.

Ao final da apresentação, Dr. Esmigo deixou para os convidados a mensagem de que “não podemos mudar o mundo, mas pelo menos mudando o mundo de uma pessoa já é válido”.

 Rosângela Tomas..

A influência musical na cultura do estupro

Duas semanas após o ocorrido, o caso de estupro coletivo no Rio de Janeiro ainda tem rendido inúmeras discussões.

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Mesmo com todas as provas concretas de que a garota foi covardemente violentada por mais de trinta homens, há quem justifique a ação dos boçais afirmando que a adolescente simplesmente procurou a situação. Não entrarei no mérito da questão para não soar repetitivo, já que a dona desse espaço, a minha amiga Jayane Condulo, escreveu uma crônica brilhante acerca do tema na semana passada e eu comungo com cada palavra lá transcrita por ela. Mas, venho fomentar uma outra discussão que nasceu nas redes sociais após toda proliferação do caso e que merece uma grande reflexão.

Foi tendenciosamente registrado em algumas reportagens sobre o caso que a jovem violentada morava em um apartamento na região de classe média no Rio de Janeiro, mas que frequentava aos bailes funks na favela carioca. Bastou esse “alerta” da mídia para as redes sociais serem tomadas de assalto com diversas postagens, fotos e memes alertando os riscos e danos morais/sociais causados pelo Funk.

Postagens citando letras de diversos artistas conhecidos no cenário do Funk, como Mc 2K, Mc Jhey, Mc Max, Mc Pikachu, Mc Bin Laden, transpareciam a depravação sexual e a depreciação da mulher, retratada como um mero objeto sexual. Em respeito à linha editorial desse espaço, não reproduzirei as letras das canções aqui, mas com certeza você já deve ter ouvido cada uma delas e compreende muito bem do que se trata.

Porém, em algumas postagens, mesmo com o tom de denúncia e repúdio, era possível constatar tamanho preconceito generalizado e falta de informação, e isso cabe uma grande discussão.

Me recordo de uma postagem que dizia: “O Funk influencia diretamente o estupro”, mas aí eu lhe pergunto: será?

Pensando dessa forma, a gente caminha no senso comum de que uma música influencia um crime bárbaro como o estupro, forçando, de certa maneira, o discurso de que a forma da mulher se vestir é a principal causa do estupro, que uma mulher andando sozinha na rua a noite está pedindo para ser estuprada e vários outros clichês que a sociedade sustenta afim de recair toda a culpa sob a vítima. Portanto, imputar um crime a um estilo musical é mais uma transferência de responsabilidade insana. O estupro acontece por outras razões e não por influência de algo, principalmente de manifestações culturais.

E em outras postagens, a galera que tem uma grande aversão ao estilo aproveitava a oportunidade para achincalhar o mesmo sem dó. Muitos ali talvez fossem mais um dos que achavam que a jovem era merecedora de tal covardia, mas estavam lá bradando gritos de contestação contra “Esse lixo musical e moral que é o Funk”.

E é nesse ponto que caímos na grande problematização da sociedade, o fato de generalizar as coisas, e generalização demais significa preguiça e desinformação.

A cantora baiana Pitty, no calor da emoção, fez uma postagem no seu twitter repudiando veemente o caso do estupro coletivo e colocou, de certa forma, a culpa em todos os homens, como se só o fato de nascer homem já lhe tornava um estuprador. Toda a ala masculina criticou a postagem da cantora que rapidamente excluiu a mesma. A própria classe masculina, que fez piadas durante anos em cima de discursos machistas e misóginos como “O lugar de toda mulher é na cozinha”, “Que mulher no volante é perigo constante”, “Que toda loira é burra”, provou do gosto amargo da generalização na postagem da Pitty. E agora a sociedade comete o mesmo erro ao generalizar o estilo musical Funk dizendo que o mesmo é uma grande depreciação moral. Mas, se a gente for analisar a fundo a história da música, de forma mundial, muitas outras canções de diversos gêneros também retratam o machismo e a depreciação da mulher de forma clara e concisa.

Quem nunca cantarolou aquele famoso sambinha:

“Amélia não tinha a maior vaidade
Amélia que era a mulher de verdade”

Quer letra mais machista do que essa? Afinal de contas, a canção composta em 1941 pela dupla Mário Lago e Ataulfo Alves, empunhava um modelo ideal de mulher a ser seguido, sem vaidade, submissa, que ficava em casa cuidando do lar e vivendo em função do seu amado esposo. E é um samba, não um Funk.

Quantas e quantas vezes o Rock n’ Roll também não fomentou a cultura do estupro, o feminicídio e até mesmo a pedofilia em suas letras? Um dos sucessos do Guns N’ Roses, trazia logo estampado no seu refrão uma frase que remete claramente ao feminicídio:

I used to love her / But I had to kill her

Eu costumava amá-la / Mas tive que matá-la

E se você ficou chocado com trinta brutamontes violentando uma jovem de 16 anos, saiba que a banda Kiss já escreveu uma famosa música na qual o personagem oculto da canção alimentava desejos por uma garota de… 16 anos! É Christine Sixteen:

I don’t usually say things like this to girls your age
but when I saw you coming out of the school that day
that day I knew, I knew, I’ve got to have you, I’ve got to have you.

She’s’ been around, but she’s young and clean
I’ve got to have her, can’t live without her, whoo no
Christine sixteen, Christine sixteen

Geralmente não falo coisas assim para garotas da sua idade
mas quando a vi na saída da escola naquele dia
naquele dia eu sabia, eu sabia, eu tinha que te possuir eu tinha que te possuir

Ela está por aí, mas ela é jovem e pura
Tenho de possuí-la, não posso viver sem ela
Christine dezesseis, Christine dezesseis

E tem vários outros gêneros musicais que reproduzem o machismo e a violência contra a mulher, não só o Funk.

Se você chegou até aqui, deve estar afirmando agora: “Esse cara é Funkeiro, no mínimo, pra defender tanto assim…” Pois é ai que você se engana! Pelo contrário, Funk é um dos gêneros musicais que eu menos gosto. Como músico, acho tecnicamente o Funk sem essência nenhuma e muito ralo em termos de sonoridade e arranjo. Mas, mesmo não gostando de Funk, eu não posso reforçar o coro de “todo Funk induz o homem a estuprar”.

“Quer dizer então que eu quero defender as letras do Funk?”, Não! De forma alguma, acho pertinente e de suma importância esse debate e identificação da cultura machista na música e posteriormente a denúncia. As letras são sim de tamanho machismo e têm as mulheres como um mero objeto sexual pronta para saciar o prazer do macho alfa. Letras assim devem ser banidas da sociedade. Mas, o meu discurso é contra a generalização, pois o mesmo Funk que já cantou que “Que avistou a novinha no grau”, também reproduziu essa letra marcante de tamanho cunho social:

Eu só quero é ser feliz
Andar tranquilamente na favela onde eu nasci
E poder me orgulhar
E ter a consciência que o pobre tem seu lugar

O Funk hoje goza de um privilégio que talvez só o sertanejo universitário tem no momento: o grande alcance midiático. Ele está constantemente nas paradas de sucesso, tem espaço na TV aberta e fala diretamente com a massa, que é o grande consumidor desse produto. Então, a minha indignação com esses Mc’s que cantam essas letras chulas e que reduzem a zero a moral feminina, por que não usar essa grande ferramenta do sistema para discursar contra a misoginia? Por que não fazer uma música que realça o empoderamento feminino? Um famoso programa global recebeu o Mc João que cantou o seu sucesso “Baile de Favela”, que contém um trecho altamente machista e que escancara a cultura de estupro, por que não fazer o inverso e usar essa grande maquina televisiva em apoio as mulheres que tanto sofrem de repressão? Afinal, tudo que elas menos precisam era de uma canção sendo executada em rede nacional que escancara o seu maior temor.

 Vinícius Vieira.


Vinícius Vieira é estudante de jornalismo na FACCAMP, editor do blog musical Fila Benário Music desde 2009, colunista mensal no blog Futebol-Arte e repórter do O Jornaleiro.

Semeando o Amor

O amor pode ser demonstrado e visto de diversas formas

Matéria: Rosângela Tomás.

Foto - Pedro Henrique.5

Foto: Pedro Henrique.

Casa cheia e muito amor para dar. Assim se resume a noite fria do último sábado (14), onde no Esporte Clube Banespa, na Avenida Santo Amaro nº 5.565, aconteceu o Semeando Alegria Show 2 – In Broadway.

Às 17:40 a entrada foi liberada ao público para o show, que estava marcado para as 18h. Em poucos minutos, quase todos os assentos já estavam ocupados. O musical, que costuma ter uma dança como abertura, foi representado este ano pelo balé.

Logo em seguida, o público se emocionou com uma declaração de amor entre Romeu & Julieta (um clássico literário do século XVI do escritor William Shakespeare), interpretados por um casal adolescente portadores da Síndrome de Down. O casal dançou uma valsa onde cada passo dado eram passos de amor.

Os adolescentes fazem parte do “Projeto Dança Adaptada” da ABADS (Associação Brasileira de Assistência e Desenvolvimento Social) juntamente com mais cinco jovens que dançaram a música “Rapunzel” da cantora Daniela Mercury, fazendo a plateia cantar e bater palmas no ritmo da música.

O grupo estava acompanhado da Fisioterapeuta Claudia, que trabalha na ABADS desde 1995. Ela iniciou seu trabalho como voluntaria, ensinando dança aos jovens. Depois de um tempo, já formada em fisioterapia, juntou a técnica da dança com a técnica da profissão para desenvolver a parte motora, equilíbrio e rítmica utilizando a música como instrumento principal. “A gente percebe que as crianças na instituição, principalmente as que tem Síndrome de Down, além de gostarem muito da dança, eles têm um talento para esse tipo de arte” – diz à fisioterapeuta, que aproveitou para deixar um convite para a comemoração antecipada do aniversario da Instituição, no dia 11 de junho ali mesmo no teatro do Banespa. Dessa vez, a equipe do Semeando Alegria que fará uma participação especial na apresentação. Claudia finaliza dizendo que essa foi a primeira participação com a Equipe do Semeando: “eu espero que não seja a única, que nós façamos mais parcerias, mais trabalhos juntos, pois eles são um grupo bem entrosado, de respeito e eu estou adorando”.

A força do amor

O show continuou com dois Semeadores interpretando um casal de idosos (Ana e Neno), que contavam a sua história de amor enquanto outros semeadores e voluntários iam encenando a história.

O casal se conheceu na escola e foi amor à primeira vista. A cena da escola foi retrata com um musical do filme “Grease – nos tempos da brilhantina” de 1978, onde eles dançaram a música “Sumer nights” da banda Van Halen e a música You’re The One That I Want escrita propriamente para o filme.

No decorrer da história, o casal foi mostrando como o amor é mais forte, sendo capaz de superar até mesmo a distância, quando a personagem Ana tem que voltar para Londrina (sua cidade natal), e mesmo assim os dois não deixam de se amar e trocam cartas durante todo o tempo.

Quando a personagem retorna, os dois ainda se amam e resolvem se casar. O casamento foi realizado pela Companhia Circo Silia, que interpretaram a clássica Família Addans e mostraram que até numa obscura e divertida família existe amor.

A Circo Silia, que é de São Bernardo do Campo, tenta levar uma nova versão do circo à plateia, a versão do circo teatro: “mostrar que o circo não é só palhacinho, bichinho” – diz Roger, representante da companhia.

Então, chegou  a hora da Companhia Ágata de Dança, que fez uma coreografia da música “O Ciclo sem Fim” do filme O rei Leão, para comemorar o nascimento do filho de Ana e Neno.

A companhia recebeu o convite da Semeadora Luana para participar do show que logo aceitou, pois a companhia está sempre envolvida com shows beneficentes.

Em um momento da história a personagem Ana descobre que está com um câncer, e é passada a mensagem do quão importante são os exames preventivos. O triste momento vem acompanhado de uma coreografia de balé da música “O fantasma da Ópera”, adaptação do livro de mesmo nome famosa nos cinemas e teatros.

Mas, o amor que Neno sentia por Ana foi mais forte, mostrando o quanto é importante estar do lado de quem tem a doença, que o amor, o carinho e a companhia são fundamentais durante o tratamento.

Semeando o “felizes para sempre”

Com o fim da história e quase se encerando o show, o Presidente da Semeando Alegria, Dário Teixeira, sobe ao palco usando o seu tradicional traje de Dr. Esmigo, agradecendo aos parceiros e colaboradores, como o Presidente Nelson do Esporte Clube Banespa, que acreditou no projeto, Maria Rosa Presidente da ABADS, a Casa Ninho, aos voluntários e ao Lucas Estevam responsável pela Casa de Apoio Vida Divina, que subiu ao palco e ressaltou: “é um sentimento que não tem palavras”, referindo-se ao trabalho realizado pela Semeando Alegria e completou: “juntos somos mais fortes”.

Além dos agradecimentos, Dário deu a notícia de que em dezembro deste ano a Semeando Alegria ONG realizará apresentações na Tailândia, e em 2017 será lançada uma nova parceria com Instituto Alana, que tem como missão “honrar a criança”.

O show contou também com um diferencial: a presença do Coral do Semeando, que fez com que cada cena ficasse ainda mais emocionante. Além da participação das companhias de dança, que também foi inédita. A semeadora Jéssica, conhecida como Sorriso, disse que a escolha das companhias foi através dos próprios semeadores, que já conheciam ou participavam de alguma.

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Foto: Simone Chocolate.

Um dos voluntários, mostrou que a distância não importa quando se tem amor. Conhecido como Capitão América, Gabriel conheceu o Dr. Esmigo pelo Instragram e voou lá de Brasília para a realização do show, conhecendo os integrantes do Semeando Alegria apenas um dia antes do espetáculo! Segundo ele, sua maior dificuldade foi fazer toda a magia acontecer, vindo de tão longe: “sair de um outro lugar valeu muito apena, cada sorriso, cada felicidade, pensar que uma noite como essa, uma oportunidade como essa pode muda a vida de uma pessoa, a nossa missão aqui hoje foi realmente, simplesmente semear alegria, então temos, missão cumprida.”

O show se encerrou com todos os integrantes e as crianças da plateia no palco, dançando a música “Happy” do cantor Pharrell Willians.

A cada show uma nova união

A advogada Michelle, de 32 anos, era cunhada de Marlon Eduany e estava na plateia no primeiro show. Após participar do evento, ela resolveu se tornar uma semeadora e entrou para a ONG em janeiro deste ano. “Parece que o coração vai sair pela boca”, declarou Michelle ao fim do show. Thiago, seu marido e irmão de Marlon, também participou este ano como voluntário e fotógrafo da ONG.

Lueden, responsável por toda produção musical do show e por trabalhar a voz do coral, também subiu ao palco e brilhou cantando no seu primeiro show com a ONG. “O maior desafio é levar a felicidade de forma didática sem dizer que você tem que ser feliz”, explica Lueden, que já seguia a ONG pelas redes sociais e resolveu participar.

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Foto: Danilo Ignácio.

A rainha do gospel, Mahalia Jackson

No famoso discurso em que de Martin Luther King falou sobre seu sonho, foi Mahalia Jackson que gritou “conta para eles sobre o seu sonho, Martin!”

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Por Felipe Nascimento | O Guia Cristão

Quando a senhora Charity Jackson morreu, em 1917, Mahalia Jackson tinha apenas seis anos de idade. Seu pai, John A. Jackson, mal podia sustentar a casa composta por treze pessoas, num bairro pobre de Nova Orleans. Depois da morte de sua mãe, Mahalia passou a ser educada por sua tia Duke. Abandou os estudos para ajudar em casa, e logo começou a trabalhar.

A tia Duke era uma batista fervorosa e a levava aos cultos todos os domingos. Foi na Mount Mariah Baptist Church que Mahalia conheceu o gospel, a música religiosa dos negros, estilo do qual ela se tornaria a maior intérprete já ouvida.

No final dos anos 20, a família Jackson foi para Chicago, cidade que prometia mais oportunidades de trabalho. Foi nesse período que conheceu Bessie Smith, uma das divas do blues, e por quem foi fortemente influenciada. Em Chicago, a voz de Mahalia se destacou no coro da Salem Baptist Church, tornando-se solista do coral. Não demorou muito para que Mahalia cantasse em outras igrejas e participasse de cruzadas evangelísticas, até que, em 1937, gravou seu primeiro disco pela The Decca Coral. Mas, o trabalho não obteve o resultado esperado pela gravadora, que acabou cancelando o contrato. Seu jeito vigoroso de cantar não caiu no agrado dos mais tradicionais.

Dez anos depois (1947), Mahalia gravou “Move On Up A Little Higher” pela gravadora Apollo, um dos seus maiores sucessos com 8 milhões de cópias vendidas e que, posteriormente, entraria para o Hall da Fama do Grammy de 1998. Mas, foi em 1950 que ocorreu o grande momento de Mahalia. Ela fez história ao ser a primeira cantora de gospel e spirutuals* a se apresentar no Carnegie Hall, o templo dos grandes nomes do Jazz em Nova York. O sucesso foi tamanho, que a turnê foi repetida nos demais anos.

Sua voz estava em rádios e emissoras de televisão, alcançando um público jamais imaginado. Chegou à Europa aclamada como a maior voz gospel de todos os tempos. O reconhecimento do público era tanto, que em 1961 cantou na posse do presidente norte-americano John Kennedy.

Todo esse glamour não satisfazia Mahalia. Ela não se considerava uma cantora de jazz ou blues e contrariava os amigos mais próximos, como Louis Armstrong e Duke Ellington, quando não aceitava cantar jazz/blues; queria mesmo é cantar o “barulho alegre para o Senhor”, como ela gostava de definir. “São canções de desespero”, declarou ela sobre o blues. “Música gospel são canções de esperança. Quando você canta gospel, a sensação é de que há uma cura para o que está errado. Mas, quando você está completamente no blues, não tem nada para descansar.”

Mahalia sabia qual era a sua missão. Procurava sempre viver o que cantava. Aliás, essa era uma de suas maiores preocupações. Mesmo em lugares não religiosos, como o Carnegie Hall, ela impunha limites. Não cantava em nenhum ambiente que contrariava suas canções, e por isso, também, rejeitava o rótulo de cantora de jazz ou blues.

“Sempre que Mahalia Jackson derramou o poder e a majestade de sua voz em uma das suas músicas preferidas, “I Believe” (Eu Acredito), nunca poderia haver qualquer dúvida de que ela quis dizer isso, quis dizer cada palavra. Ela acreditava. Ela acreditava em seu Deus e ela acreditou em si mesma. E a sinceridade de sua crença tocou através de cada nota que ela cantou. Por causa de sua crença, ela traçou um caminho muito simples, direto ao longo da vida e ela segurou Nele todo o caminho. Não houve desvios. Ela cantou o Evangelho. Ela cantou a glória de Deus.” Por JOHN S. WILSON

O sucesso pós Carnegie Hall ajudou a situação financeira de Mahalia. Ela comprou uma casa num bairro nobre de Chicago, mas sofreu com o preconceito ainda vigente. Era um bairro de branco, e, portanto, não era bem-vinda ali. Um dia, um tiro atravessou sua janela, sem atingir ninguém.

Mesmo com o reconhecimento público, Mahalia ainda era vítima da segregação e sua luta a fez conhecer Martin Luther King. Tornou-se a voz dos comícios, marchas, manifestações. Participou de Selma e da marcha de Washington, entre outros.

No famoso discurso em que de King falou sobre seu sonho, foi Mahalia que o impulsionou. “Conta para eles sobre o seu sonho, Martin”, gritou ela no meio do discurso de Martin Luther King em Washington. Ele então emendou “I have a dream…”. Desviando-se o discurso programado.

Na morte de Marin Luther King, ela cantou “Take My Hand, Precious Lord” (Segure minha mão, Rei precioso), uma das canções mais famosas em sua voz. “Tenho esperança de que meu canto vai quebrar algo do ódio e do medo que dividi os brancos e negros neste país”, dizia ela.

“Uma voz como a de Mahalia surge uma vez a cada milênio.” Por MARTIN LUTHER KING

Dali em diante, Mahalia se envolveu cada vez mais com a luta dos direitos civis. Criou o Mahalia Jackson Scholarship Foundation, que oferecia bolsas de estudos para jovens negros ingressarem em universidades. Por esse e outros trabalhos, ganhou The Silver Dove Award, em 1961.

Ainda nos anos 60, mesmo com a saúde debilitada, cantou na Libéria, Japão e Índia e lançou seu último álbum, Guide Me, O Thou Great Jehovah (1969), até passar a se dedicar totalmente em ações beneficentes. Morreu em 1972, aos 60 anos, vítima de um ataque cardíaco.

Quando penso em sua morte, imagino que devia estar cantando Move On Up a Little Higher. “One of these mornings, I’m going to lay down my cross and get me a crown… and move on up a little higher.”, que numa tradução livre seria: “Em uma destas manhãs, vou dar a minha cruz e ganhar uma coroa… e ir um pouco mais alto”.

Mahalia Jackson é um exemplo de artista totalmente compromissada com sua fé, mas que também compreendeu que é possível fazer arte além dos muros da religiosidade. Não limitou sua voz apenas aos cultos dominicais, mas deu-a ao mundo em um brado contra a desigualdade. Cantou e encantou. Serviu ao próximo. Serviu a Deus.


*Spiritual: música religiosa cantada pelos escravos norte-americanos nos campos de trabalho. As músicas retratavam especificamente a vida de dores da escravidão e a busca pela liberdade. Há quem diga que algumas, se tornavam códigos de comunicação entre os escravos.