Vitor Guedes

Pedala, neoesquerda!

downloadSer esquerda já foi sinônimo de rebeldia com causa. Corajosa, fundamentada. A vitória do ideal, da prioridade social sobre o desmando desigual do capital. Na época da ignóbil Ditadura. Também era romântico ser esquerda na era em que o povo era refém do abjeto discurso-chantagem de Mário Amato. Pausa. Para estelionato. Não foi por falta de aviso. Carta ao povo brasileiro, tudo documentado.
O palco da festa da vitória vermelha foi emblemático: avenida Paulista, sede dos bancos, da Fiesp. Alegria made in China, discurso importado de um mundo globalizado. Ala majoritária brindando com 12 anos de bacana. Festança, gastança de grana. Por conta. Os 12 viraram pelo menos 16. Já foram 14. Cuba continua na periferia: com a inflação, aumentou o preço da coca com pinga. Tudo continuou no azul, pingando para os grandes bancos, para os graúdos correntistas. Quatrocentões decadentes, empresários emergentes. Adesistas baratos travestidos de idealistas, na mesma corrente. Vermelho-gourmet. Lógica sinistra de quem muda o passo para não deixar a pista. Do poder. Dois passos à esquerda, cargo à vista. Na cadeira, direita, volver. Em nada suaves prestações. Desde 1500, há muitas gerações. Sem medo de ser feliz. Os mesmos que mandam, desmandam e mamam desde o desmame dos tataravôs não queriam ver a ex-esquerda, mesmo enquadrada, chegar, é verdade. Como eram contrários até as Diretas-Já. Sem fazer alarde.
Se a vitória do outro lado é inevitável, “relaxa e goza”. Ninguém é de ninguém na suruba partidária. Os mesmos que defendem a “família” são ninfomaníacos do pan-partidarismo. Aliança Suíça. Cinco milhões, Jesus! Oh, God, em dólares. Partidos surgem a rodo. Cara de pau é uma arte. Quem sabe sabe, vota no partido do Kassab… “Não somos de esquerda, de direita, nem de centro”. É a “idealista” frente liberal, a velha arena, que se autointitula democrata. Como o ego e o senso do ridículo são poucos, no plural. Surreal. E o ex-vice do Serra sobe a montanha e vira ministro de todas as cidades. Nem precisou do Pronatec. Isso pode. A Rede, por causa de meia dúzia de assinaturas, não pôde. Não até passar a eleição e a última reeleição. Reeleição que começou comprada pelo partido que, agora na oposição, virou o dono da razão. É a merititiocracia voando para cima e para baixo no aeroporto do tio. Senta lá, Claudio.
Voltemos ao “relaxa e goza”, um “estupra, mas não mata” com verniz. E salto 15. Antes, os donos do país tinham mais medo da estrela vermelha do que de Sexta-Feira 13. O medo logo virou esperança de perpetuar a bonança. Dos mesmos. Capitalizaram em cima da “marca” socialismo. Foice e martelo de boutique. Repaginado. Skaff, presidente da FIESP, foi candidato pelo Partido Socialista Brasileiro. Vai explicar em Portugal, no estrangeiro… Antes de aderir ao PMDB de Cunha. O Eduardo. Euclides, fala para a mãe. Para o tio. Para a filha jeitosa da subversiva da vizinha. Ser esquerda já foi moda. Outrora, para ser descolado, uma mão na roda. Agora, ser de esquerda é motivo de chacota. Ou até xingamento. Para ignorante, que confunde comunista com pedofilia, que é esquerda come criancinha. Esperar o que dessa gente que vê comunismo no governo do Joaquim Levy, da Kátia Abreu. Vai perder tempo com essa gente? Nem eu!
Mais atrasado do que a comunismofobia de gente que não sabe sequer o que é comunismo é repetir a bobagem que direita e esquerda é coisa do passado. É do passado, do presente, do futuro, sempre existirão visões diferentes, divergentes. O que mudam são as bandeiras, dependendo do momento histórico.
Eu sou de esquerda. Rejeitado pela esquerda, é verdade. Não me vejo nas bandeiras da esquerda. Não essa moderninha. A minha esquerda é a que defende transporte público de massa. Não sou contra a ciclovia, ciclofaixa. Mas quem vier com esse papo de que bicicleta é a solução toma um pedala. Não acredito sequer na lotação ou no ônibus. Transporte público, de massa, é ferroviário. Trem e metrôs decentes. Bicicleta e ônibus, na minha opinião, é para levar de casa à estação metroviária do bairro.
A esquerda de agora acha normal se aliar a Sarney, Collor, Maluf e outros embustes, em nome da tal governabilidade. Eu continuo desprezando essa gente. E preferia a luta na oposição à patética submissão para ser desgoverno.
A maior defesa de quem está no poder agora é dizer que a roubalheira vem de outrora. E é verdade. O outro lado pode dizer que nunca se roubou tanto como agora. Nem negam que não é novidade. O fato é que mais do mesmo. Não mudaram as moscas. Renan estava lá. Ministro da Justiça de FHC. Continuou lá, com Lula lá. Líder de Dilma. Triste rima. Vale para ele, vale para Sarney, para o PP de Maluf desde o PDS. Socorro, Brasil, SOS!
Roubo é ambidestro! Na origem. Robin Hood só em filme. Não que seja o correto. Ao menos seria romântico. Mas os assaltos ao cofres públicos são todos de direita. Inclusive os cometidos pela “esquerda”. Porque são todos privados. E fétidos. PPP é a PQP. Rouba-se em nome de Deus, em nome do Estado. Mas o destino é individual. Qualquer coisa, é só falar que é consultoria. É imoral. E há quem tiro do seu e faça vaquinha. Para pagar fiança do herói do povo brasileiro.
O governo que se elegeu com o PMDB e governa com ele é acusado de pedalada fiscal. Enquanto a esquerda de agora pouco fala do metrô discute bicicleta (a direita não só não discute, como não faz: tem linha que não tem projeto nem orçamento!), a minha esquerda lamenta o fim antes do início do arco do futuro, do privilégio à periferia, de mais Estado onde ele é necessário, de mais escola, de defesa aos direitos trabalhistas, de não à terceirização.
Não adianta pedalar e reduzir a velocidade das marginais na capital, e, na esfera federal, governar em marcha à ré com as forças do atraso e com quem atua como marginal dos cofres públicos. Se esse é o preço de ser governo, que deixe essa gente toda no governo. E que, na oposição, a velha esquerda, com novas bandeiras de esquerda, volte. Olhando para a frente. Sem perder a ternura. Jamais.
PS: Vai, Corinthians!

downloadFanático corintiano e morador da Zona Leste, Vitor Guedes, 38, é colunista esportivo do Jornal Agora São Paulo e professor na FAPSP (Faculdade de Comunicação). Apesar de ser exceção à regra dos jornalistas que escrevem sobre tudo ao mesmo tempo, Vitor não generaliza sua vida em futebol. Um exemplo disso é que procura sempre abordar assuntos políticos em suas aulas, enfatizando que é o tema de maior importância para conhecimento de seus alunos. O professor, que também é conhecido por suas participações no Seleção SporTV, diz que não gosta de impor seus valores a ninguém, e que o bom jornalista dá sempre os dois lados da história, noticiando de forma imparcial.

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