A indústria natalina não precisa do seu dinheiro

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Natal. Época de amor, comunhão e muitos, muitos presentes. Nem todos são sinceros e quase nunca úteis, mas eles sempre estão lá, debaixo da árvore ou passando de mão em mão no já conhecido amigo secreto.

Em tempos de crise, toda economia é bem-vinda. Menos nas festas de final de ano, não é mesmo? Nesse período, os preços disparam em lojas de todos os segmentos. Roupas, sapatos, eletrônicos e até as comidas típicas da data custam “os olhos da cara”. Com o atual momento do país, a indústria natalina se vê obrigada a subir o preço de seus produtos para sobreviver. E os consumidores, apesar de saírem perdendo, não abrem mão das compras.

Já que é pra gastar, por que não com presentes mais vantajosos? O consumidor que opta por algo artesanal, por exemplo, acaba saindo muito mais satisfeito.

“Você compra um produto personalizado, feito do jeito que escolher e com um material de qualidade. Além disso, ainda ajuda o pequeno empreendedor e, dessa forma, aquece a economia doméstica do país”, defende Raquel Condulo, artesã criadora da Arte e Graça que, há dois anos, oferece artigos para a casa e mimos em MDF.

Para quem gosta de surpreender, há ainda opções não palpáveis, como uma viagem simples, um piquenique, ou um dia no salão de beleza.

“Algumas realizações não estão em objetos que você dá para a pessoa. Quando uma mulher senta numa cadeira de um salão de beleza, por exemplo, ela não está apenas mudando o visual, mas está também mexendo com sua auto estima, com seu olhar diante do espelho”, explica Samuel Rodrigues, que trabalhou mais de 11 anos como cabeleireiro no centro de São Paulo e agora aplica a mesma qualidade profissional no Ateliê D’Capelle, na zona leste. “Um dia no salão de beleza tem o poder de mudança que qualquer mulher deseja, pois muda até o temperamento. É algo que a deixa feliz se estava triste,e espanta até a depressão. Esse é o diferencial do presente.”

Já para aqueles que gostam de presentear de forma saborosa, é possível fugir do comum panetone. Foi pensando nisso que, há cerca de um mês, Nathane Oliveira resolveu investir em seus dons na cozinha, criando o Mimos da Nah, onde vende brigadeiros gourmet. Ela ressalta a importância de saber a procedência do produto, ainda mais quando se trata de um alimento. “Hoje em dia é essencial a relação entre consumidor e fabricante. Essa troca de experiências é super positiva, pois é um contato direto e não através de um sac, email, chat ou telefone. É uma relação de confiança, pois sempre deixo claro os produtos que uso e meu modo de trabalhar.”

Assim, o Natal pode ficar mais doce, mais surpreendente, mais customizado. A grande indústria não precisa do seu dinheiro. Já não basta todas as outras datas em que ela nos consome, como a Páscoa, o Carnaval, o dia dos pais, das mães, das crianças, dos namorados. Até finados nos levam à falência! Nesse Natal, façamos o dinheiro chegar às pessoas comuns e não às grandes multinacionais.

— Jayane Condulo.

A contabilidade do azeite

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Milênios antes de “As Crônicas de Gelo e Fogo” ser escrita, outra história épica cheia de ação, rainhas más, profetas zangados e batalhas sangrentas acontecia no curso da História. Trata-se da narrativa bíblica-histórica de Crônicas e Reis, um prato cheio para quem gosta de um enredo rico em aventuras.

Uma dessas histórias descreve uma viúva pobre em apuros financeiros*. Além da tragédia de perder o marido e ficar sozinha com dois filhos pequenos para criar, o montante devedor  era tão alto que seus filhos seriam levados como escravos, a fim de quitar a dívida. Um drama.

Totalmente desesperada, ela procurou o profeta Eliseu e contou seu dilema. Este, pergunta:

— O que você tem em casa?

— Nada, apenas uma vasilha de azeite — ela responde.

E então, a história assume seu desfecho maravilhoso e sobrenatural. O profeta orienta a mulher a pedir vasilhas emprestadas dos vizinhos e ir enchendo com o azeite que ela já tinha. Assim ela o fez. E, enquanto houve vasilhas, o azeite não acabou. A viúva vendeu o azeite, quitou as dívidas e viveu feliz com seus filhos.

Eis algumas lições maravilhosas que esse texto nos ensina:

Na história da vida, haverá situações em que você será responsável pelo papel do profeta. Quando esse for o caso, você deve estar preparado para ajudar quem vier buscar socorro em você. E quando acontecer, simplifique.

A pessoa desesperada geralmente não consegue seguir uma linha de pensamento prático, então ajude-a a organizar um plano sistemático e simples.  “O que você tem em casa?”; “Quais são seus recursos?”; “O que você sabe fazer?”; são perguntas lógicas e de extrema utilidade para começar a se organizar. Interessante é notar que não existe pessoa pobre demais que não tenha algo que se possa utilizar, apenas é preciso desembaçar o olhar, e esse é o papel do profeta. Ajude pessoas a enxergarem seus dons, valorizar o que possuem.

  1. CONFIE NAS PESSOAS QUE POSSAM TE AJUDAR. Quando o enredo mudar e você se vir no papel da viúva pobre, apenas lembre-se: Não importa quantas pessoas você perdeu na vida, sempre haverá alguém disposto a te ajudar. O ser humano foi feito para viver em sociedade, como John Donne escreveu “ninguém é uma ilha”, eventualmente precisamos uns dos outros e isso é bom, não é fraqueza nenhuma admitir que precisa de ajuda.
  2. USE O QUE VOCÊ TEM. Na hora da crise, não procure soluções mirabolantes, não se meta em dívidas para quitar dívidas, não se desespere. Use o que você tem à seu favor. Talvez você desenhe bem, faz uma maquiagem bacana, assa uns bolos que todo mundo adora. Pense em como você pode usar esses talentos que até ontem eram apenas hobbies para rentabilizar. Atualize-se, assista tutoriais e se puder, faça cursos de aperfeiçoamento. Melhore o que você já sabe fazer.
  3. PENSE GRANDE. Quando o profeta disse à viúva que pedisse aos vizinhos vasilhas emprestadas, talvez ela tenha pedido apenas uma ou duas. Olhou para a quantidade de azeite que tinha e deve ter pensado: “mas é tão pouco, mal encherá uma vasilha…” Penso que a surpresa da mulher foi imensa em ver que quanto mais ela colocava, mais o azeite rendia. Quando se trata dos seus dons e habilidades, acredite, a fonte de onde jorra seu talento é inesgotável. Criatividade é um recurso que quanto mais se usa, mais se tem, não economize. Pegue todas as vasilhas que puder e confie em si mesmo.
  4. USE SUA FÉ. Entenda que na vida, nem tudo depende de nós. Há coisas que só o Dono da existência pode fazer, mas isso não é problema seu, já que não é de sua alçada. Então, pare de se preocupar com o que não consegue fazer e foque no que pode ser feito. Deixa com Deus o que for de Deus e cuide da sua parte. Primeiro ponha o pé, que Deus providencia o chão. Prepare suas vasilhas que o azeite é com ele.

Essa é uma história interativa, foi escrita há milhares de anos, mas o azeite continua jorrando da vasilha da viúva pobre através dos séculos. Pegue quanto quiser.

— Raquel Condulo.


*II Reis 4.1-7

Raquel Condulo é cristã e artesã na Arte e Graça – Artigos para casa e presentes em MDF.

ROTINEIRAS | Vamo, Vamo, Chape

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Na madrugada da última terça-feira, nos tornamos todos torcedores de um time só. Desde então, somos torcedores desse time que lutou para chegar aonde chegou, que mereceu cada vitória, que mostrou para o Brasil a força de um clube de apenas 43 anos.

Dia 29 de novembro de 2016 não foi um dia de luto para o futebol. Foi um dia de luto para a nação inteira, e para além dela também. Perdemos representantes de um time, profissionais de comunicação e uma tripulação. Mas, acima de tudo, perdemos pai, mãe, filhos, irmãos e amigos, pessoas que ficarão sempre em nossos corações, sejam elas conhecidas de longa data ou não.

Não é preciso mencionar aqueles que se aproveitaram da situação para o sensacionalismo, promoção de suas marcas e afins, apesar do repúdio que tais atitudes nos causam. Mas pensemos, sim, naqueles que mesmo não sendo amantes do futebol, sentem-se tocados com o acontecimento e respeitam a dor dos familiares e amigos.

Toda homenagem é valida e merecida. Vamos todos vestir as cores da Chape, nos reunir na Arena Condá e rezar por eles. Vamos trocar nossas fotos nas redes sociais, mudar o brasão dos nossos times e nos unir a uma cidade que perdeu seus heróis — que levaram o time à primeira final de uma competição internacional —, mas que esperamos que não percam o amor pelo futebol.

Força Chapecoense, que mostrou a todo o país (e agora para o mundo) que o clube que leva o seu nome é guerreiro. Sim ele é, não alteremos o verbo para o passado, pois a Associação Chapecoense de Futebol não morreu. O futebol perdeu membros únicos e insubstituíveis, que com certeza são a representação máxima deste time, mas o clube continua, e continua com a força de um país que ama o seu futebol e que não quer ter um time riscado da sua lista de clubes.

Nós do Rotineiras deixamos aqui nossas singelas palavras e profunda solidariedade. Que as imagens abaixo sejam as últimas em nossas mentes: uma equipe que comemora, ora e agradece todas as suas conquistas. As imagens de um time vitorioso.

— Rosângela Tomás e Jayane Condulo.

Não dê esmolas

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Estava no metrô de São Paulo quando, de repente, ouvi uma voz berrando no microfone de avisos: “Não dê esmolas”. A forma nada doce com que a funcionária da companhia alertou os usuários me chamou a atenção, e sua insistência perambulou pelos meus ouvidos ao longo do dia.

Existem diversas campanhas no país inteiro intituladas “não dê esmolas”. Algumas até bem sérias, com um telefone indicando para abrigos que possam atender um morador de rua, por exemplo. Não era o caso do Metrô. Fiquei, então, me perguntando o por que de tanta agressividade na frase. Tanto na CPTM quanto no Metrô, é expressamente proibido pedir esmolas ou apresentar-se em condições que causem transtorno ou repugnância aos demais usuários.

É incrível como falar sobre esmolas nos coloca no extremo da superioridade. Ou você não dá esmolas por nojo e irritância por tê-lo incomodado, ou você dá esmolas para pura e simples massagem do ego. Se você financia instituições carentes mas ignora crianças no farol, você não é uma pessoa suficientemente boa. Se você dá esmolas mas não tem coragem de abraçar esse mesmo maltrapilho ou levá-lo em seu carro até um lugar que o acolha melhor, você também não é tão bom quanto parece.

O metrô não quer que você dê esmolas pois será um usuário a menos para lhe gerar lucros. Mas, no fundo, você mesmo não quer dar esmolas. Não está nem um pouco interessado em ajudar outro alguém. Só doa roupas na “campanha do agasalho” porque é bonito ou é algum conhecido seu que está organizando. Nunca pagou um almoço para um necessitado, mas paga o almoço do chefe pra conseguir uma promoção. E, mesmo se der esmolas, nunca será com a moeda de mais valor. Jamais será com uma nota. Cinco centavos são suficientes para manter sua consciência limpa, na doce ilusão de que ajudou o país naquele dia.

Não dê esmolas. Também não dê pão ou bolachinha. Nem doe seu dinheiro à instituições de caridade. Não ajude o próximo. De jeito nenhum. Não faça nada apenas para massagear o seu “eu”.

— Jayane Condulo.

Um menino, um game e uma sociedade

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Gustavo Detter, 13 anos, encontrado morto, com uma corda no pescoço — em frente ao computador. 1 minuto de silêncio para tamanha tragédia contida em uma frase só.

Eu, que nenhum parentesco tenho com a vítima, estou de luto. Acredito que todos deveríamos estar de luto. Não só pelo menino, que ainda tinha tanto para viver. Não só pela família, que recebeu a surpresa mais desagradável do mundo. Por tudo isso também. Mas o luto maior é pela sociedade.

Esse texto não abordará a questão culpa — foi do game ou da imaturidade dos garotos? Esse texto é diretamente para você, caro leitor, que não tem tempo para discutir questões contemporâneas.

É demasiadamente fácil dizer que “esses jogos fazem mal” ou que “esses meninos só têm brincadeira besta”, enquanto estamos ocupados demais com nossos trabalhos e melhorias do nosso próprio futuro, ignorando completamente o quanto a sociedade caminha para o mal.

O garoto foi encontrado morto, com uma corda no pescoço e, repito, em frente ao computador. Isolado da convivência familiar, absolto em uma atitude que lhe fazia sentir maduro, grande.

Morreu, enforcado. Como nós mesmos estamos nos enforcando, matando-nos, destruindo nossas vidas sem ao menos perceber. Viramos reféns de nossos próprios progressos, presos em nossos próprios egos, envolvidos demais com a alta tecnologia a ponto de não mais enxergar o outro.

1 minuto de silêncio para nós.

— Jayane Condulo.

Carta aos professores

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São Paulo, 14 de outubro de 2016.

Destino esse texto àqueles que me ensinaram que não há outro jeito de se começar uma carta, senão pela data.

Caro professor (a),

Sinto muito pelo o que lhe fizeram. Ver o quanto a sociedade te despreza — nos princípios e no salário — me entristece e me dói como se fosse comigo. E, de certa forma, é.

Tive minha primeira professora em casa, a que me ensinou a falar “mamãe”, pois era ela mesma. Me ensinou o significado de “não” e quais eram as vogais. Quando entrei na primeira série do Fundamental, dona Maria das Dores foi a extensão de mamãe. Esta, com todo carinho e amor, me ensinou a escrever. Com 7 anos fiz minha primeira poesia, porque a professora mandou e incentivou. Saber que a maioria dos que eram meus colegas na época hoje já nem lembram mais de sua existência, me mostra o quanto seu nome n]ão era em vão.

Já não bastasse o esquecimento dos alunos, vocês têm de enfrentar o descaso do Governo. Recordo-me de meus professores de Educação Artística e Educação Física, alguns que até vi chorar, que eram deixados de lado na grade curricular das escolas. E se já era assim há alguns anos, coloco-me em suas peles hoje, com a não-obrigatoriedade de tais disciplinas no Ensino Médio. Não, não foram extintas (como o próprio Governo diz), só não são tão importantes assim.

Enquanto os professores do primário não têm nenhum valor, os que dão aulas em universidades roubam-lhes toda a importância. Parei de contar quantas vezes ouvi que não podia ficar dando ouvidos aos meus professoras da faculdade, pois são manipuladores demais. Quem dera o mundo inteiro reconhecesse que tais profissionais podem nos abrir portas, janelas, até o universo!

Mas a verdade é que todos vocês foram e sempre serão os meus óculos, me fazendo enxergar com mais clareza a realidade que antes era vista com miopia. Não fosse vocês, eu jamais estaria onde estou. Nem eu e nem mais ninguém dessa sociedade tão mal agradecida. Não sou mais cega das letras, muito menos cega do mundo.

Escrevo para manter-lhes viva a certeza de que ainda vale a pena. De que as inúmeras vezes em que abraçaram seus alunos (até literalmente) não foram esquecidas. De que as lições, dentro e fora da escola, não foram apagadas. De que sois importantes. Sempre serão!

Jayane Condulo.

Brasil, diga oi para seu novo presidente

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Acabou. Dilma Rousseff foi afastada da presidência com o resultado de 61 votos favoráveis e 20 contrários ao impeachment. A partir de agora, Michel temer é o novo presidente da República brasileira. Diga oi, Brasil!

Se você está festejando a posse do peemedebista, de duas uma: ou você é empresário, ou um desinformado.

Desculpe a sinceridade, caro leitor, mas algumas coisas precisam ser esclarecidas antes de comemorarmos o novo presidente. O argumento de “pelo menos a Dilma saiu” é até compreensível, mas muito raso pelo o que vem pela frente.

Não, eu não estou dizendo que a ex-presidenta não errou ou não fez por onde de sofrer o impeachment. Muito pelo contrário, sempre lamentei ser representada por uma pessoa que mal sabia falar em público. Mas o que talvez você não saiba é que a frase “ruim com ela e pior sem ela” nunca fez tanto sentido quanto fará nos próximos dias e meses.

Para seu conhecimento, na manhã seguinte em que Dilma foi deposta o dólar passou a subir repentinamente. Às 11h39 do dia 1 de setembro, a moeda norte-americana subia 0,84%, sendo vendida a R$ 3,2567. Mas espera aí, não estava todo mundo dizendo que o dólar estava caro por causa do governo petista?

Falemos sobre saúde então, já que o financeiro não anda nada bem. 75% da população brasileira depende do SUS, visto que os preços dos planos de saúde são abusivos e muitas vezes inalcançáveis. Seria uma grande tragédia se o Governo cancelasse esse programa, não? É isso mesmo, Temer estuda rever o Sistema Único de Saúde para frear gastos em seu governo.

Imagino que agora você tenha começado a se preocupar, mas não para por ai. Em sua primeira fala à TV como presidente, Temer defende a reforma previdenciária e trabalhista, o que pode causar danos (e interrupções) em benefícios como férias, 13º salário, salário mínimo, licença-paternidade, entre outros. Na prática, tudo o que estiver na CLT poderá ser alvo de negociação.

Ainda em seu pronunciamento, o peemedebista deixou bem claro de que lado está: “Nossa missão é mostrar a empresários e investidores de todo o mundo nossa disposição para proporcionar bons negócios que vão trazer empregos ao Brasil. Temos que garantir aos investidores estabilidade politica e segurança jurídica.”

Agora você entende que, para comemorar a chegada de Michel Temer na presidência da República, ou você deve ser empresário, ou está desinformado, não é? É impossível pertencer à classe média/baixa e ser beneficiado com essa nova proposta de governo que claramente não está do lado “mais fraco”.

Lamentável, mas reais. Parabéns Brasil, diga oi a seu novo presidente!

Jayane Condulo.