Gay e cristão? Entenda o movimento Jesus Cura a Homofobia

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Por Jayane Condulo

Você já deve ter ouvido falar na Cura Gay, mas conhece a cura homofóbica? Um grupo de cristãos, em São Paulo, decidiu realizar um ato na Parada Gay de 2015, pedindo perdão pelos erros que as igrejas cometem contra homossexuais e transexuais.

A ação acabou se tornando em um movimento, chamado Jesus Cura a Homofobia, fundado pelo teólogo José Barbosa Junior (46), com o apoio de um amigo. Hoje, o movimento conta com cerca de 40 voluntários espalhados por 5 estados brasileiros, e o intuito é alcançar todo o país. A ideia é espalhar que é possível, sim, ser gay e cristão (ao mesmo tempo), excluindo a condenação comum em igrejas tradicionais.

Confira abaixo a entrevista exclusiva de José Barbosa para o Rotineiras, e entenda melhor o movimento, seus questionamentos e confrontos espirituais.

De onde veio a ideia de criar o movimento “Jesus Cura a Homofobia” e como você conseguiu mobilizar as pessoas?

A ideia surgiu de uma forma totalmente inesperada. Desde 2013, circula na internet uma foto da Parada Gay de Chicago [com um cristão abraçando um homossexual], e desde que eu vi aquela foto, mexeu muito comigo. Afinal, eu vi um caso de perto, de um rapaz homossexual em Teresópolis, que se converteu na minha igreja e tentou de várias formas se curar daquilo. Ele dava testemunhos até, mas todo mundo olhava e falava “é bicha, todo mundo tá vendo, não tem como”, e esse “bicha” não tem nenhum tom pejorativo, mas a gente olhava e dizia “não dá”. Ele ficou na igreja o tempo todo sofrendo bullying, até que não aguentou mais e saiu, injetou silicone no corpo todo e hoje é uma trans. E eu fiquei pensando: “no que a gente errou?”. Quando eu vi a foto, aquilo ficou dentro do meu coração por muito tempo. Aí eu estava em São Paulo, em 2015, e ia ter a Parada Gay, e uns dias antes da Parada eu vi essa foto de novo. Falei: “vou fazer isso”. Só que, detalhe: eu decidi fazer isso na terça-feira antes da Parada, que seria no domingo. Aí chamei um amigo meu, o Silas Fiorotti, na quarta-feira a noite, na Livraria Cultura da Av. Paulista. Falei pra ele: “Silas, vamos fazer isso?”. Ele faz parte do Coletivo por uma Espiritualidade Libertária, e topou. Aí ele perguntou o que a gente iria usar, qual seria nosso lema, e por mim o nosso tema poderia ser o mesmo de Boston, pedindo perdão. Ele falou “não cara, aí vamos imitar demais, vamos pensar numa coisa nossa”. Na hora, me veio a frase “Jesus Cura a Homofobia”. O olho dele arregalou e ele disse “é isso!”. Aí pronto. Mas e aí, quem vai? Saímos de lá já decididos do nome e tal, cheguei em casa às 23h e publiquei a ideia, que eu e um amigo faríamos um ato na Paulista no domingo etc. Aí começou. Nisso, um amigo virtual meu fez a arte do Jesus Cura a Homofobia. E eu falei “como assim?” (risos). Um outro amigo falou pra criar um evento no Facebook, aí eu peguei a arte, usei como fundo, criei o evento e comecei a divulgar. Aí começou: 10, 20, 30, 40, 50… 400 pessoas. Falei “cara, se for todo mundo, vai dar um rolo danado”. Mas muita gente estava ali como um apoio, gente do Brasil inteiro falando que iria. Até então, eu já achava aquela coisa toda enorme. Na quinta-feira, meio dia, me liga uma menina da Folha de S. Paulo, querendo saber sobre o ato, e eu já espantado com aquilo! Ela fez a entrevista comigo pelo próprio Facebook, depois ela me ligou e passou quase 40 minutos falando comigo, querendo conhecer mais o contexto. E aí foi uma coisa curiosa, porque eu lembro que eu estava num evento na Ibab [Igreja Batista da Água Branca, em São Paulo], e ela me ligou, conversamos bastante, depois de 5 minutos ela me ligou de novo, e falou “José, eu tô vendo aqui no Facebook que você é casado com a fulana, é verdade?”. Na época, eu ainda estava casado, aí falei que sim, e ela “mas então, você é hétero?!” (risos) E aí foi interessante, porque ela quis saber o por que eu estava fazendo aquilo. Foi a minha chance pra dizer que a minha percepção do evangelho é essa, e ela achou isso lindo e fez questão de frisar na reportagem, que é a coisa de você levantar pra lutar por algo que não é a sua realidade. A reportagem saiu no sábado de manhã na Folha, e aí o evento de 400 pessoas pulou para 5 mil. Eu falei “cara, é outra Parada no meio da Parada”, desesperado. Bom, ali eu senti que o negócio se transformou numa coisa bem maior do que a gente imaginava. Eu só ia fazer um ato na Av. Paulista, não tinha ideia de criar um movimento, era só um ato. Mas nós, como crentes, acreditamos que há um movimento do Espírito Santo que faz as coisas acontecerem, e aconteceu. Na Parada, só apareceram 25 pessoas, ainda bem, mas a repercussão disso foi a absurda, eu não tinha noção de onde aquilo ia parar. Desde o dia 14 de junho de 2015, a minha vida mudou. Só naquela semana, eu tive uma média de 800 mensagens no Facebook, algumas que não respondi até hoje, pois não consegui dar conta! Gente do Brasil inteiro contando histórias muito parecidas: gays, de igreja, expulsos de casa ou que não foram expulsos porque não assumiram ainda. Aí você vê que a realidade pede um movimento.

E como foi a experiência na Parada Gay?

Foi mais maravilhoso do que a gente imaginava! Era engraçado porque a faixa ficou bem curiosa. O “Jesus Cura” era grande e “a Homofobia” menor, então tinha gente que olhava o cartaz e já vinha pra brigar com a gente, achando que era a “Cura Gay”. Só que, quando olhavam os outros cartazes que o pessoal estava carregando, bom… a gente perdeu a conta de abraços, choros e de tudo o que a gente viveu naquele dia. Quando passou o último trio elétrico, era uma drag queen que estava falando, e quando ela passou por nós pediu para o caminhão parar e leu todos os cartazes, todos. E ela falou “esse é o tipo de igreja que a gente sonha no nosso país”. Aquilo, pra mim, valeu tudo. Não tem preço sabe, não dá pra mensurar, e eu vi que Deus estava naquilo. Foi uma experiência de abraços, gente chorando, e quando eu cheguei em casa já tinham mais de mil solicitações de amizade. Um negócio doido!

Como os familiares reagiram à ideia do movimento?

Foi tranquilo, porque a minha família me conhece! (risos). Mas a mãe da minha filha insinuou coisas sobre mim, mas ela fez isso mais por uma acusação de peso espiritual, ela e o pastor dela, aliás. Porque, o que aconteceu foi que a minha filha começou a concordar com as minhas ideias, e ela tinha 15 anos na época. Então, para dissuadir minha filha dessas ideias, disseram isso. Foi um absurdo. Para a mãe dela, eu estou pervertendo a fé da minha filha!

Você lavou os pés da transexual Viviane Beleboni (que desfilou crucificada na Parada Gay de 2015). Como foi essa experiência?

Foi o seguinte, quando eu vi a cena da Viviane, entendi a mensagem na hora. Eu não vi sacrilégio nenhum naquilo, vi exatamente o que ela queria passar: “nós, transexuais, somos crucificadas”. E, quando você conhece a realidade transexual, você se assusta. Por exemplo, a expectativa de vida de uma trans no Brasil é de 35 anos, metade de uma pessoa “comum”. Isso não é normal, não pode ser normal. Imagina chegar aos 30 anos e pensar “eu vou morrer a qualquer momento”, seja assassinado, de doença, etc. A sociedade vai excluindo e depois culpa a pessoa, principalmente no caso de trans, pois já começam a aflorar a transexualidade desde pequenos. Muitos são rejeitados pela família; na igreja então, nem se fala; deixam de ir para a escola. Então, não têm formação, não têm família, não têm nada e precisam se manter na vida, aí vão para a prostituição. Aí são pobres, mas têm que injetar silicone no corpo de qualquer jeito, literalmente, e isso traz problemas sérios para a saúde. Além disso, tem a questão da violência, então a  expectativa de vida é horrível. Mas, voltando à Viviane, duas semanas depois da Parada, o pessoal resolveu fazer um ato inter-religioso de desagravo. Engraçado, ela saiu crucificada na Parada, mas foi realmente crucificada depois, por todo mundo. Então, resolvemos fazer esse ato lá no Largo do Arouche, tinha um padre, um representante judeu, um muçulmano, várias entidades religiosas. Como no cristianismo temos o “lavar dos pés”, eu tive a ideia de fazer isso como um símbolo de perdão e de total serviço, pois a ideia é essa que estamos aqui para servir. Então, levei a bacia, chamei o padre e ele topou. Não tinha ninguém lá de imprensa, mas todo mundo fotografou pois foi um momento marcante daquele dia, e depois isso ganhou a rede, de uma forma que chegou a ser publicado até em um jornal da Alemanha. Então, o negócio correu o mundo. E essa era a percepção que a gente tinha: “perdoe-nos, estamos aqui para te servir”. Foi uma experiência muito marcante, a Viviane chorou muito, a gente chorou muito.

O movimento tem algum tipo de ação social para homossexuais?

Isso é o que a gente ainda está bolando. Primeiro, queremos montar uma rede de pastores, padres, líderes religiosos que trabalhem nessa perspectiva. Porque eu recebo muito email de outros estados, e aí eu tenho que tentar, por telefone, conversar com a pessoa, com a família da pessoa e tentar fazer a mediação. A ideia é ter alguém em diferentes regiões para fazer isso, visitar a família, conversar, aconselhar. Uma outra ideia é uma ação que estamos tentando estruturar há um ano, mas precisamos de igrejas que topem fazer. É uma ação em conjunto com a ONG Mães pela Diversidade, levando palestras nas igrejas, divididas em três tempos: a Bíblia e a homossexualidade; mãe e a descoberta da homossexualidade do filho; e a experiência do próprio filho. Acho que essa tríade de palestras pode mudar muita coisa nas igrejas, pois tem identificação. Uma mãe falando em uma igreja tem autoridade maior que o pastor, porque a mãe que ouvir vai se identificar, é a empatia. Então, se a gente conseguir entrar nas igrejas com esse tipo de ação, creio que pode ter uma repercussão muito grande. Quando um gay procura a gente pedindo recomendação de igreja, é um caso sério. Tem as igrejas inclusivas, mas elas têm problemas ainda mais sérios, pois vai o aceitar como gay mas vai continuar com regras de uma igreja normal, e condenando os outros, que é o pior! Hoje, das igrejas inclusivas, a única que recomendo de olhos fechados é a ICM (Igreja da Comunidade Metropolitana), porque ela trabalha numa perspectiva de direitos humanos, então é libertária em todos os sentidos, não só sobre orientação sexual. É realmente uma teologia abrangente, e isso pra mim é fundamental. Mas, às vezes, o cara não quer, ele quer ir para uma igreja tradicional, e aí eu explico como vai ser. Enfim, ainda precisa de muitos ajustes para o que a gente quer fazer. Teve gente do Brasil inteiro querendo replicar a ideia, e aí começou um outro problema. A Lagoinha [igreja batista em Belo Horizonte, conhecida pelo seu ministério de louvor Diante do Trono], por exemplo, usou o termo Jesus Cura a Homofobia no ano seguinte em um evento deles. Só que não foi no mesmo sentido que a gente. Lá é “Jesus cura a homofobia”, mas o gay tem que deixar de ser gay. Então, eu reuni todo mundo que participou na Parada e disse qual era minha linha de raciocínio, e todo mundo concordou. Então formamos um documento base (ainda estamos construindo mas já tem algumas coisas), para passar pra todo mundo que queira fazer também, em qualquer parte do país. Ninguém vai usar Jesus Cura a Homofobia para falar outra coisa, algo que a gente não fala. A gente não fala que o gay tem que se transformar, a gente fala que ele vai continuar gay. Gay e cristão. Muita gente pensou que era só uma isca, do tipo fingir que aceita para trazer a pessoa, como a maioria das igrejas fazem. Mas não, é realmente abraçar a ideia de que se é aquilo. Eu comecei a conhecer de dentro, as histórias que eu ouvi, as pessoas que eu ouvi, me fizeram rever coisas que eu não tinha pensado a minha vida inteira. Depois que se ouve essas pessoas, não dá para continuar sendo o mesmo. Ouvir alguém falar “eu sempre gostei de meninos, e sempre amei Jesus”, como dizer para essa pessoa que não? Como dizer que ela não ama Jesus, porque se amasse gostaria de mulher? Não é assim.

Mas, a Bíblia não condena as práticas homossexuais?

Não. Estou escrevendo um livro que é justamente sobre isso, onde faço uma releitura de todos os textos que, a princípio, condenam. Primeiro, a gente tem que definir o que é a homossexualidade. Uma coisa é o ato sexual, como era praticado no Antigo Testamento, como domínio, manifestação de poder. Quando uma cidade conquistava a outra, a primeira coisa que faziam era estuprar as mulheres, porque o sexo era a forma de mostrar domínio. Em alguns casos, eles estupravam os homens também, exatamente para subjugar. Então, a condenação no Antigo Testamento é sócio-política. “Homem não deve se deitar com homem”, porque homem foi feito para dominar, e a mulher que era dominada, não o homem. O que está por trás é esse pensamento. O relacionamento afetivo é uma questão moderna, até para os heterossexuais. Casar por amor, por exemplo, é algo do nosso tempo, é recente. Por isso eu digo que a igreja tem que estar se reinventando sempre, pois quando se fala de homossexualidade hoje, se fala em afeto. E tem gente que não consegue sentir afeto por outro sexo. Então, pegar isso no Antigo Testamento e trazer para cá é um desastre, pois não é relação de afeto, é relação de poder. Quando vamos para o Novo Testamento, encontramos problemas mais sérios ainda. Tem um texto em Romanos, por exemplo, que é em um contexto de culto, e não de relacionamento. Em Roma, as orgias eram cultuais, e a condenação ali era para os cultos em que “ninguém é de ninguém”. As pessoas estão indo para a igreja e levando esses costumes, e era isso que estava sendo condenado. Por isso é necessário uma leitura da época, para não fazer uma leitura totalmente equivocada. Outra coisa: não havia homossexuais na época de Jesus? Claro que havia, sempre houve em todo a história. E o que Jesus fala sobre homossexualidade? Nada, absolutamente nada. Se fosse algo tão sério quanto a gente quer que seja, não acho que ele iria deixar passar em branco. Por exemplo, Jesus teve uma condenação muito mais clara ao divórcio e a gente não leva isso em conta, porque “os tempos mudaram”. E eu sou divorciado! Ninguém leva isso em conta. Nesse caso sim, tem que ver o contexto, a atualidade, etc, porque aí tem um interesse né.

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Pós 2016

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Acabou. O “pior ano” de quase todo mundo, acabou. Será? Pós 2016 e eu te pergunto: o que muda? Ou, seria mais correto questionar o que nós faremos para mudar tudo o que foi de ruim no ano mais detestado da história?

Pós 2016 e continuamos achando que a cultura do estupro não existe, que 30 homens não estavam errados. Pós 2016 e ainda estamos alienados em joguinhos do celular enquanto andamos na rua, ou em games que assassinam meninos na madrugada. Pós 2016 e continuamos comemorando o Brasil “para gringo ver”, como se não tivesse bulling e racismo dentro de casa.

Não, não mudamos. Vamos continuar cuidando da vida alheia assistindo BBB e pulando Carnaval, para depois falar mal de ambos. Vamos continuar protestando com a camisa da CBF que não é corrupta, acatando o discurso totalmente partidário da grande mídia. Continuamos sem saber explicar o que é a Lava a Jato e sem saber escrever (e nem pronunciar) a palavra impeachment. E, falando em impeachment, vamos continuar elegendo políticos que vimos votar  a favor do processo, mas não pelo contexto em sim, mas “por Deus, pelos pais, pelos filhos, pela tia Eurides e pela paz em Jerusalém (!)”.

Aliás, vamos continuar protestando contra a corrupção, mas furando a fila no mercado, sendo caloteiro, mentindo pra todo mundo, criticando a política do país sem lembrar em quem a gente votou.

E, depois de tudo isso, vamos continuar usando a frase “o Brasil não vai pra frente” pra maquiar nossa hipocrisia diária. Pós 2016 – o que muda pra você?

— Jayane Condulo.

A indústria natalina não precisa do seu dinheiro

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Natal. Época de amor, comunhão e muitos, muitos presentes. Nem todos são sinceros e quase nunca úteis, mas eles sempre estão lá, debaixo da árvore ou passando de mão em mão no já conhecido amigo secreto.

Em tempos de crise, toda economia é bem-vinda. Menos nas festas de final de ano, não é mesmo? Nesse período, os preços disparam em lojas de todos os segmentos. Roupas, sapatos, eletrônicos e até as comidas típicas da data custam “os olhos da cara”. Com o atual momento do país, a indústria natalina se vê obrigada a subir o preço de seus produtos para sobreviver. E os consumidores, apesar de saírem perdendo, não abrem mão das compras.

Já que é pra gastar, por que não com presentes mais vantajosos? O consumidor que opta por algo artesanal, por exemplo, acaba saindo muito mais satisfeito.

“Você compra um produto personalizado, feito do jeito que escolher e com um material de qualidade. Além disso, ainda ajuda o pequeno empreendedor e, dessa forma, aquece a economia doméstica do país”, defende Raquel Condulo, artesã criadora da Arte e Graça que, há dois anos, oferece artigos para a casa e mimos em MDF.

Para quem gosta de surpreender, há ainda opções não palpáveis, como uma viagem simples, um piquenique, ou um dia no salão de beleza.

“Algumas realizações não estão em objetos que você dá para a pessoa. Quando uma mulher senta numa cadeira de um salão de beleza, por exemplo, ela não está apenas mudando o visual, mas está também mexendo com sua auto estima, com seu olhar diante do espelho”, explica Samuel Rodrigues, que trabalhou mais de 11 anos como cabeleireiro no centro de São Paulo e agora aplica a mesma qualidade profissional no Ateliê D’Capelle, na zona leste. “Um dia no salão de beleza tem o poder de mudança que qualquer mulher deseja, pois muda até o temperamento. É algo que a deixa feliz se estava triste,e espanta até a depressão. Esse é o diferencial do presente.”

Já para aqueles que gostam de presentear de forma saborosa, é possível fugir do comum panetone. Foi pensando nisso que, há cerca de um mês, Nathane Oliveira resolveu investir em seus dons na cozinha, criando o Mimos da Nah, onde vende brigadeiros gourmet. Ela ressalta a importância de saber a procedência do produto, ainda mais quando se trata de um alimento. “Hoje em dia é essencial a relação entre consumidor e fabricante. Essa troca de experiências é super positiva, pois é um contato direto e não através de um sac, email, chat ou telefone. É uma relação de confiança, pois sempre deixo claro os produtos que uso e meu modo de trabalhar.”

Assim, o Natal pode ficar mais doce, mais surpreendente, mais customizado. A grande indústria não precisa do seu dinheiro. Já não basta todas as outras datas em que ela nos consome, como a Páscoa, o Carnaval, o dia dos pais, das mães, das crianças, dos namorados. Até finados nos levam à falência! Nesse Natal, façamos o dinheiro chegar às pessoas comuns e não às grandes multinacionais.

— Jayane Condulo.

A contabilidade do azeite

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Milênios antes de “As Crônicas de Gelo e Fogo” ser escrita, outra história épica cheia de ação, rainhas más, profetas zangados e batalhas sangrentas acontecia no curso da História. Trata-se da narrativa bíblica-histórica de Crônicas e Reis, um prato cheio para quem gosta de um enredo rico em aventuras.

Uma dessas histórias descreve uma viúva pobre em apuros financeiros*. Além da tragédia de perder o marido e ficar sozinha com dois filhos pequenos para criar, o montante devedor  era tão alto que seus filhos seriam levados como escravos, a fim de quitar a dívida. Um drama.

Totalmente desesperada, ela procurou o profeta Eliseu e contou seu dilema. Este, pergunta:

— O que você tem em casa?

— Nada, apenas uma vasilha de azeite — ela responde.

E então, a história assume seu desfecho maravilhoso e sobrenatural. O profeta orienta a mulher a pedir vasilhas emprestadas dos vizinhos e ir enchendo com o azeite que ela já tinha. Assim ela o fez. E, enquanto houve vasilhas, o azeite não acabou. A viúva vendeu o azeite, quitou as dívidas e viveu feliz com seus filhos.

Eis algumas lições maravilhosas que esse texto nos ensina:

Na história da vida, haverá situações em que você será responsável pelo papel do profeta. Quando esse for o caso, você deve estar preparado para ajudar quem vier buscar socorro em você. E quando acontecer, simplifique.

A pessoa desesperada geralmente não consegue seguir uma linha de pensamento prático, então ajude-a a organizar um plano sistemático e simples.  “O que você tem em casa?”; “Quais são seus recursos?”; “O que você sabe fazer?”; são perguntas lógicas e de extrema utilidade para começar a se organizar. Interessante é notar que não existe pessoa pobre demais que não tenha algo que se possa utilizar, apenas é preciso desembaçar o olhar, e esse é o papel do profeta. Ajude pessoas a enxergarem seus dons, valorizar o que possuem.

  1. CONFIE NAS PESSOAS QUE POSSAM TE AJUDAR. Quando o enredo mudar e você se vir no papel da viúva pobre, apenas lembre-se: Não importa quantas pessoas você perdeu na vida, sempre haverá alguém disposto a te ajudar. O ser humano foi feito para viver em sociedade, como John Donne escreveu “ninguém é uma ilha”, eventualmente precisamos uns dos outros e isso é bom, não é fraqueza nenhuma admitir que precisa de ajuda.
  2. USE O QUE VOCÊ TEM. Na hora da crise, não procure soluções mirabolantes, não se meta em dívidas para quitar dívidas, não se desespere. Use o que você tem à seu favor. Talvez você desenhe bem, faz uma maquiagem bacana, assa uns bolos que todo mundo adora. Pense em como você pode usar esses talentos que até ontem eram apenas hobbies para rentabilizar. Atualize-se, assista tutoriais e se puder, faça cursos de aperfeiçoamento. Melhore o que você já sabe fazer.
  3. PENSE GRANDE. Quando o profeta disse à viúva que pedisse aos vizinhos vasilhas emprestadas, talvez ela tenha pedido apenas uma ou duas. Olhou para a quantidade de azeite que tinha e deve ter pensado: “mas é tão pouco, mal encherá uma vasilha…” Penso que a surpresa da mulher foi imensa em ver que quanto mais ela colocava, mais o azeite rendia. Quando se trata dos seus dons e habilidades, acredite, a fonte de onde jorra seu talento é inesgotável. Criatividade é um recurso que quanto mais se usa, mais se tem, não economize. Pegue todas as vasilhas que puder e confie em si mesmo.
  4. USE SUA FÉ. Entenda que na vida, nem tudo depende de nós. Há coisas que só o Dono da existência pode fazer, mas isso não é problema seu, já que não é de sua alçada. Então, pare de se preocupar com o que não consegue fazer e foque no que pode ser feito. Deixa com Deus o que for de Deus e cuide da sua parte. Primeiro ponha o pé, que Deus providencia o chão. Prepare suas vasilhas que o azeite é com ele.

Essa é uma história interativa, foi escrita há milhares de anos, mas o azeite continua jorrando da vasilha da viúva pobre através dos séculos. Pegue quanto quiser.

— Raquel Condulo.


*II Reis 4.1-7

Raquel Condulo é cristã e artesã na Arte e Graça – Artigos para casa e presentes em MDF.

ROTINEIRAS | Vamo, Vamo, Chape

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Na madrugada da última terça-feira, nos tornamos todos torcedores de um time só. Desde então, somos torcedores desse time que lutou para chegar aonde chegou, que mereceu cada vitória, que mostrou para o Brasil a força de um clube de apenas 43 anos.

Dia 29 de novembro de 2016 não foi um dia de luto para o futebol. Foi um dia de luto para a nação inteira, e para além dela também. Perdemos representantes de um time, profissionais de comunicação e uma tripulação. Mas, acima de tudo, perdemos pai, mãe, filhos, irmãos e amigos, pessoas que ficarão sempre em nossos corações, sejam elas conhecidas de longa data ou não.

Não é preciso mencionar aqueles que se aproveitaram da situação para o sensacionalismo, promoção de suas marcas e afins, apesar do repúdio que tais atitudes nos causam. Mas pensemos, sim, naqueles que mesmo não sendo amantes do futebol, sentem-se tocados com o acontecimento e respeitam a dor dos familiares e amigos.

Toda homenagem é valida e merecida. Vamos todos vestir as cores da Chape, nos reunir na Arena Condá e rezar por eles. Vamos trocar nossas fotos nas redes sociais, mudar o brasão dos nossos times e nos unir a uma cidade que perdeu seus heróis — que levaram o time à primeira final de uma competição internacional —, mas que esperamos que não percam o amor pelo futebol.

Força Chapecoense, que mostrou a todo o país (e agora para o mundo) que o clube que leva o seu nome é guerreiro. Sim ele é, não alteremos o verbo para o passado, pois a Associação Chapecoense de Futebol não morreu. O futebol perdeu membros únicos e insubstituíveis, que com certeza são a representação máxima deste time, mas o clube continua, e continua com a força de um país que ama o seu futebol e que não quer ter um time riscado da sua lista de clubes.

Nós do Rotineiras deixamos aqui nossas singelas palavras e profunda solidariedade. Que as imagens abaixo sejam as últimas em nossas mentes: uma equipe que comemora, ora e agradece todas as suas conquistas. As imagens de um time vitorioso.

— Rosângela Tomás e Jayane Condulo.

Não dê esmolas

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Estava no metrô de São Paulo quando, de repente, ouvi uma voz berrando no microfone de avisos: “Não dê esmolas”. A forma nada doce com que a funcionária da companhia alertou os usuários me chamou a atenção, e sua insistência perambulou pelos meus ouvidos ao longo do dia.

Existem diversas campanhas no país inteiro intituladas “não dê esmolas”. Algumas até bem sérias, com um telefone indicando para abrigos que possam atender um morador de rua, por exemplo. Não era o caso do Metrô. Fiquei, então, me perguntando o por que de tanta agressividade na frase. Tanto na CPTM quanto no Metrô, é expressamente proibido pedir esmolas ou apresentar-se em condições que causem transtorno ou repugnância aos demais usuários.

É incrível como falar sobre esmolas nos coloca no extremo da superioridade. Ou você não dá esmolas por nojo e irritância por tê-lo incomodado, ou você dá esmolas para pura e simples massagem do ego. Se você financia instituições carentes mas ignora crianças no farol, você não é uma pessoa suficientemente boa. Se você dá esmolas mas não tem coragem de abraçar esse mesmo maltrapilho ou levá-lo em seu carro até um lugar que o acolha melhor, você também não é tão bom quanto parece.

O metrô não quer que você dê esmolas pois será um usuário a menos para lhe gerar lucros. Mas, no fundo, você mesmo não quer dar esmolas. Não está nem um pouco interessado em ajudar outro alguém. Só doa roupas na “campanha do agasalho” porque é bonito ou é algum conhecido seu que está organizando. Nunca pagou um almoço para um necessitado, mas paga o almoço do chefe pra conseguir uma promoção. E, mesmo se der esmolas, nunca será com a moeda de mais valor. Jamais será com uma nota. Cinco centavos são suficientes para manter sua consciência limpa, na doce ilusão de que ajudou o país naquele dia.

Não dê esmolas. Também não dê pão ou bolachinha. Nem doe seu dinheiro à instituições de caridade. Não ajude o próximo. De jeito nenhum. Não faça nada apenas para massagear o seu “eu”.

— Jayane Condulo.

Um menino, um game e uma sociedade

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Gustavo Detter, 13 anos, encontrado morto, com uma corda no pescoço — em frente ao computador. 1 minuto de silêncio para tamanha tragédia contida em uma frase só.

Eu, que nenhum parentesco tenho com a vítima, estou de luto. Acredito que todos deveríamos estar de luto. Não só pelo menino, que ainda tinha tanto para viver. Não só pela família, que recebeu a surpresa mais desagradável do mundo. Por tudo isso também. Mas o luto maior é pela sociedade.

Esse texto não abordará a questão culpa — foi do game ou da imaturidade dos garotos? Esse texto é diretamente para você, caro leitor, que não tem tempo para discutir questões contemporâneas.

É demasiadamente fácil dizer que “esses jogos fazem mal” ou que “esses meninos só têm brincadeira besta”, enquanto estamos ocupados demais com nossos trabalhos e melhorias do nosso próprio futuro, ignorando completamente o quanto a sociedade caminha para o mal.

O garoto foi encontrado morto, com uma corda no pescoço e, repito, em frente ao computador. Isolado da convivência familiar, absolto em uma atitude que lhe fazia sentir maduro, grande.

Morreu, enforcado. Como nós mesmos estamos nos enforcando, matando-nos, destruindo nossas vidas sem ao menos perceber. Viramos reféns de nossos próprios progressos, presos em nossos próprios egos, envolvidos demais com a alta tecnologia a ponto de não mais enxergar o outro.

1 minuto de silêncio para nós.

— Jayane Condulo.