CRÔNICAS

Pós 2016

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Acabou. O “pior ano” de quase todo mundo, acabou. Será? Pós 2016 e eu te pergunto: o que muda? Ou, seria mais correto questionar o que nós faremos para mudar tudo o que foi de ruim no ano mais detestado da história?

Pós 2016 e continuamos achando que a cultura do estupro não existe, que 30 homens não estavam errados. Pós 2016 e ainda estamos alienados em joguinhos do celular enquanto andamos na rua, ou em games que assassinam meninos na madrugada. Pós 2016 e continuamos comemorando o Brasil “para gringo ver”, como se não tivesse bulling e racismo dentro de casa.

Não, não mudamos. Vamos continuar cuidando da vida alheia assistindo BBB e pulando Carnaval, para depois falar mal de ambos. Vamos continuar protestando com a camisa da CBF que não é corrupta, acatando o discurso totalmente partidário da grande mídia. Continuamos sem saber explicar o que é a Lava a Jato e sem saber escrever (e nem pronunciar) a palavra impeachment. E, falando em impeachment, vamos continuar elegendo políticos que vimos votar  a favor do processo, mas não pelo contexto em sim, mas “por Deus, pelos pais, pelos filhos, pela tia Eurides e pela paz em Jerusalém (!)”.

Aliás, vamos continuar protestando contra a corrupção, mas furando a fila no mercado, sendo caloteiro, mentindo pra todo mundo, criticando a política do país sem lembrar em quem a gente votou.

E, depois de tudo isso, vamos continuar usando a frase “o Brasil não vai pra frente” pra maquiar nossa hipocrisia diária. Pós 2016 – o que muda pra você?

— Jayane Condulo.

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A contabilidade do azeite

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Milênios antes de “As Crônicas de Gelo e Fogo” ser escrita, outra história épica cheia de ação, rainhas más, profetas zangados e batalhas sangrentas acontecia no curso da História. Trata-se da narrativa bíblica-histórica de Crônicas e Reis, um prato cheio para quem gosta de um enredo rico em aventuras.

Uma dessas histórias descreve uma viúva pobre em apuros financeiros*. Além da tragédia de perder o marido e ficar sozinha com dois filhos pequenos para criar, o montante devedor  era tão alto que seus filhos seriam levados como escravos, a fim de quitar a dívida. Um drama.

Totalmente desesperada, ela procurou o profeta Eliseu e contou seu dilema. Este, pergunta:

— O que você tem em casa?

— Nada, apenas uma vasilha de azeite — ela responde.

E então, a história assume seu desfecho maravilhoso e sobrenatural. O profeta orienta a mulher a pedir vasilhas emprestadas dos vizinhos e ir enchendo com o azeite que ela já tinha. Assim ela o fez. E, enquanto houve vasilhas, o azeite não acabou. A viúva vendeu o azeite, quitou as dívidas e viveu feliz com seus filhos.

Eis algumas lições maravilhosas que esse texto nos ensina:

Na história da vida, haverá situações em que você será responsável pelo papel do profeta. Quando esse for o caso, você deve estar preparado para ajudar quem vier buscar socorro em você. E quando acontecer, simplifique.

A pessoa desesperada geralmente não consegue seguir uma linha de pensamento prático, então ajude-a a organizar um plano sistemático e simples.  “O que você tem em casa?”; “Quais são seus recursos?”; “O que você sabe fazer?”; são perguntas lógicas e de extrema utilidade para começar a se organizar. Interessante é notar que não existe pessoa pobre demais que não tenha algo que se possa utilizar, apenas é preciso desembaçar o olhar, e esse é o papel do profeta. Ajude pessoas a enxergarem seus dons, valorizar o que possuem.

  1. CONFIE NAS PESSOAS QUE POSSAM TE AJUDAR. Quando o enredo mudar e você se vir no papel da viúva pobre, apenas lembre-se: Não importa quantas pessoas você perdeu na vida, sempre haverá alguém disposto a te ajudar. O ser humano foi feito para viver em sociedade, como John Donne escreveu “ninguém é uma ilha”, eventualmente precisamos uns dos outros e isso é bom, não é fraqueza nenhuma admitir que precisa de ajuda.
  2. USE O QUE VOCÊ TEM. Na hora da crise, não procure soluções mirabolantes, não se meta em dívidas para quitar dívidas, não se desespere. Use o que você tem à seu favor. Talvez você desenhe bem, faz uma maquiagem bacana, assa uns bolos que todo mundo adora. Pense em como você pode usar esses talentos que até ontem eram apenas hobbies para rentabilizar. Atualize-se, assista tutoriais e se puder, faça cursos de aperfeiçoamento. Melhore o que você já sabe fazer.
  3. PENSE GRANDE. Quando o profeta disse à viúva que pedisse aos vizinhos vasilhas emprestadas, talvez ela tenha pedido apenas uma ou duas. Olhou para a quantidade de azeite que tinha e deve ter pensado: “mas é tão pouco, mal encherá uma vasilha…” Penso que a surpresa da mulher foi imensa em ver que quanto mais ela colocava, mais o azeite rendia. Quando se trata dos seus dons e habilidades, acredite, a fonte de onde jorra seu talento é inesgotável. Criatividade é um recurso que quanto mais se usa, mais se tem, não economize. Pegue todas as vasilhas que puder e confie em si mesmo.
  4. USE SUA FÉ. Entenda que na vida, nem tudo depende de nós. Há coisas que só o Dono da existência pode fazer, mas isso não é problema seu, já que não é de sua alçada. Então, pare de se preocupar com o que não consegue fazer e foque no que pode ser feito. Deixa com Deus o que for de Deus e cuide da sua parte. Primeiro ponha o pé, que Deus providencia o chão. Prepare suas vasilhas que o azeite é com ele.

Essa é uma história interativa, foi escrita há milhares de anos, mas o azeite continua jorrando da vasilha da viúva pobre através dos séculos. Pegue quanto quiser.

— Raquel Condulo.


*II Reis 4.1-7

Raquel Condulo é cristã e artesã na Arte e Graça – Artigos para casa e presentes em MDF.

Não dê esmolas

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Estava no metrô de São Paulo quando, de repente, ouvi uma voz berrando no microfone de avisos: “Não dê esmolas”. A forma nada doce com que a funcionária da companhia alertou os usuários me chamou a atenção, e sua insistência perambulou pelos meus ouvidos ao longo do dia.

Existem diversas campanhas no país inteiro intituladas “não dê esmolas”. Algumas até bem sérias, com um telefone indicando para abrigos que possam atender um morador de rua, por exemplo. Não era o caso do Metrô. Fiquei, então, me perguntando o por que de tanta agressividade na frase. Tanto na CPTM quanto no Metrô, é expressamente proibido pedir esmolas ou apresentar-se em condições que causem transtorno ou repugnância aos demais usuários.

É incrível como falar sobre esmolas nos coloca no extremo da superioridade. Ou você não dá esmolas por nojo e irritância por tê-lo incomodado, ou você dá esmolas para pura e simples massagem do ego. Se você financia instituições carentes mas ignora crianças no farol, você não é uma pessoa suficientemente boa. Se você dá esmolas mas não tem coragem de abraçar esse mesmo maltrapilho ou levá-lo em seu carro até um lugar que o acolha melhor, você também não é tão bom quanto parece.

O metrô não quer que você dê esmolas pois será um usuário a menos para lhe gerar lucros. Mas, no fundo, você mesmo não quer dar esmolas. Não está nem um pouco interessado em ajudar outro alguém. Só doa roupas na “campanha do agasalho” porque é bonito ou é algum conhecido seu que está organizando. Nunca pagou um almoço para um necessitado, mas paga o almoço do chefe pra conseguir uma promoção. E, mesmo se der esmolas, nunca será com a moeda de mais valor. Jamais será com uma nota. Cinco centavos são suficientes para manter sua consciência limpa, na doce ilusão de que ajudou o país naquele dia.

Não dê esmolas. Também não dê pão ou bolachinha. Nem doe seu dinheiro à instituições de caridade. Não ajude o próximo. De jeito nenhum. Não faça nada apenas para massagear o seu “eu”.

— Jayane Condulo.

Carta aos professores

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São Paulo, 14 de outubro de 2016.

Destino esse texto àqueles que me ensinaram que não há outro jeito de se começar uma carta, senão pela data.

Caro professor (a),

Sinto muito pelo o que lhe fizeram. Ver o quanto a sociedade te despreza — nos princípios e no salário — me entristece e me dói como se fosse comigo. E, de certa forma, é.

Tive minha primeira professora em casa, a que me ensinou a falar “mamãe”, pois era ela mesma. Me ensinou o significado de “não” e quais eram as vogais. Quando entrei na primeira série do Fundamental, dona Maria das Dores foi a extensão de mamãe. Esta, com todo carinho e amor, me ensinou a escrever. Com 7 anos fiz minha primeira poesia, porque a professora mandou e incentivou. Saber que a maioria dos que eram meus colegas na época hoje já nem lembram mais de sua existência, me mostra o quanto seu nome n]ão era em vão.

Já não bastasse o esquecimento dos alunos, vocês têm de enfrentar o descaso do Governo. Recordo-me de meus professores de Educação Artística e Educação Física, alguns que até vi chorar, que eram deixados de lado na grade curricular das escolas. E se já era assim há alguns anos, coloco-me em suas peles hoje, com a não-obrigatoriedade de tais disciplinas no Ensino Médio. Não, não foram extintas (como o próprio Governo diz), só não são tão importantes assim.

Enquanto os professores do primário não têm nenhum valor, os que dão aulas em universidades roubam-lhes toda a importância. Parei de contar quantas vezes ouvi que não podia ficar dando ouvidos aos meus professoras da faculdade, pois são manipuladores demais. Quem dera o mundo inteiro reconhecesse que tais profissionais podem nos abrir portas, janelas, até o universo!

Mas a verdade é que todos vocês foram e sempre serão os meus óculos, me fazendo enxergar com mais clareza a realidade que antes era vista com miopia. Não fosse vocês, eu jamais estaria onde estou. Nem eu e nem mais ninguém dessa sociedade tão mal agradecida. Não sou mais cega das letras, muito menos cega do mundo.

Escrevo para manter-lhes viva a certeza de que ainda vale a pena. De que as inúmeras vezes em que abraçaram seus alunos (até literalmente) não foram esquecidas. De que as lições, dentro e fora da escola, não foram apagadas. De que sois importantes. Sempre serão!

Jayane Condulo.

Brasil, diga oi para seu novo presidente

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Acabou. Dilma Rousseff foi afastada da presidência com o resultado de 61 votos favoráveis e 20 contrários ao impeachment. A partir de agora, Michel temer é o novo presidente da República brasileira. Diga oi, Brasil!

Se você está festejando a posse do peemedebista, de duas uma: ou você é empresário, ou um desinformado.

Desculpe a sinceridade, caro leitor, mas algumas coisas precisam ser esclarecidas antes de comemorarmos o novo presidente. O argumento de “pelo menos a Dilma saiu” é até compreensível, mas muito raso pelo o que vem pela frente.

Não, eu não estou dizendo que a ex-presidenta não errou ou não fez por onde de sofrer o impeachment. Muito pelo contrário, sempre lamentei ser representada por uma pessoa que mal sabia falar em público. Mas o que talvez você não saiba é que a frase “ruim com ela e pior sem ela” nunca fez tanto sentido quanto fará nos próximos dias e meses.

Para seu conhecimento, na manhã seguinte em que Dilma foi deposta o dólar passou a subir repentinamente. Às 11h39 do dia 1 de setembro, a moeda norte-americana subia 0,84%, sendo vendida a R$ 3,2567. Mas espera aí, não estava todo mundo dizendo que o dólar estava caro por causa do governo petista?

Falemos sobre saúde então, já que o financeiro não anda nada bem. 75% da população brasileira depende do SUS, visto que os preços dos planos de saúde são abusivos e muitas vezes inalcançáveis. Seria uma grande tragédia se o Governo cancelasse esse programa, não? É isso mesmo, Temer estuda rever o Sistema Único de Saúde para frear gastos em seu governo.

Imagino que agora você tenha começado a se preocupar, mas não para por ai. Em sua primeira fala à TV como presidente, Temer defende a reforma previdenciária e trabalhista, o que pode causar danos (e interrupções) em benefícios como férias, 13º salário, salário mínimo, licença-paternidade, entre outros. Na prática, tudo o que estiver na CLT poderá ser alvo de negociação.

Ainda em seu pronunciamento, o peemedebista deixou bem claro de que lado está: “Nossa missão é mostrar a empresários e investidores de todo o mundo nossa disposição para proporcionar bons negócios que vão trazer empregos ao Brasil. Temos que garantir aos investidores estabilidade politica e segurança jurídica.”

Agora você entende que, para comemorar a chegada de Michel Temer na presidência da República, ou você deve ser empresário, ou está desinformado, não é? É impossível pertencer à classe média/baixa e ser beneficiado com essa nova proposta de governo que claramente não está do lado “mais fraco”.

Lamentável, mas reais. Parabéns Brasil, diga oi a seu novo presidente!

Jayane Condulo.

Ouro do Brasil?

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Rafaela Silva: o nome que conquistou a primeira medalha de ouro do Brasil nas Olimpíadas 2016. Mas, espera aí, medalha de ouro DO BRASIL? Eu diria que não. O ouro será do Brasil quando nosso preconceito, prepotência e falsa sabedoria sobre tudo diminuírem. Por enquanto, não chegamos nem ao bronze!

Ouro de quem então?

Da Rafaela, que conquistou muito mais do que uma medalha. A Rafaela, que venceu os apelidos nada carinhosos na infância, que deixou de ser contratada em muitos empregos por sua cor ou aparência que foge do modelo estabelecido pela sociedade. Ela, que foi taxada como maria-homem, que não se encaixava no clube da Luluzinha, que nunca estava na lista das mais sexy’s. Ela, que além de todo preconceito racial, ainda teve que enfrentar a pobreza, a meia rasgada, o busão lotado, a preocupação de cortarem a luz.

Ouro da Rafaela, mas o Brasil perdeu mais uma vez. Tivemos a grande chance de nos alegrarmos [sinceramente] pela conquista, pela grande barreira que deveria ser quebrada, mas nadamos mais uma vez em nossos discursos vaidosos, em nossas redes sociais cheias de hipocrisia e falsa modéstia, em nossos vãos debates sobre a importância do feminismo e meritocracia. Não que não tenha importância debater tais assuntos, mas não há nenhum sentido na forma que o fazemos.

Então, mais uma vez, ouro da Rafaela, que depois de tudo isso ainda teve que tolerar toda nossa estupidez massiva, de nariz erguido e medalha no pescoço. E nós nem ao bronze chegamos, quem sabe um dia a gente aprenda a competir decentemente, como ela soube fazer!

Jayane Condulo.

A vida antes e depois de Pokémon Go

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Foi um susto! Acordei num belo dia e o mundo tinha virado do avesso. Levei alguns segundos para assimilar que não se tratava de um atentado ou da volta de Jesus Cristo, mas de um jogo para smartphones com donos completamente viciados.

De repente, todos os jornais (que até então eu julgava importantes), todos os sites, toda roda de amigos, tudo e todos falavam sobre o tal Pokémon Go e eu me sentia o ser humano mais alienado da face da Terra. Em ano de eleições, às vésperas de uma Olimpíada sediada no Brasil e no auge de um impeachment da presidente da República, a última coisa que eu esperava era que os brasileiros parassem tudo para priorizar um game que, até então, nem estava à sua disposição.

Mas, como sabemos, o brasileiro é o ser mais surpreendente que pode existir.

O fato é que as pessoas resolveram apelar. Até o Ministério da Educação (MEC) foi obrigado a entrar na onda e alertar: “o Enem é mais importante que o Pokémon“. O Detran também não ficou atrás: fez campanha para conscientizar (leia-se implorar) motoristas e pedestres que o jogo pode (e vai) causar acidentes desastrosos. Até o Metrô de SP postou em suas redes socias: “Fique atento para não se arriscar nem atrapalhar os outros usuários“. Só faltou um “pelo amor de Deus”!

É claro que os jogadores ignoram tudo isso. Mas sempre tem alguém atento — no caso, os assaltantes. Em menos de 24 horas no Brasil, já foram registrados casos em São Paulo, Vila Velha e Goiânia.

Enquanto isso, eu continuo me sentindo um ‘extraterrestre’, aguardando ansiosamente o fim da moda ou o cansaço dos meus amigos nas redes sociais, em casa e no trabalho para voltar à vida como ela é: um jogo que não ganho nunca!

Jayane Condulo.